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A parte que não estava nos livros — Paloma Justa
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Sinopse

A parte que não estava nos livros

A maternidade real que ninguém te contou

Você pode ler todos os livros sobre maternidade, pesquisar cada dúvida no Google e tentar se preparar para tudo.

Mas, quando o bebê finalmente chega, você descobre que existe uma parte da maternidade que ninguém conseguiu colocar nos livros.

A parte dos sentimentos que você não esperava sentir.

Dos dias em que você percebe que nem sabe o que está fazendo.

Do cansaço, da culpa, das dúvidas, das descobertas e também daqueles momentos tão simples que fazem tudo valer a pena.

Neste livro, eu compartilho, de forma leve e sincera, as experiências que vivi desde a gestação até os desafios da infância: puerpério, chegada do bebê, amamentação, desmame, sono, educação, limites, birras, conflitos e tantas outras situações que fazem parte da maternidade real.

Aqui você não vai encontrar uma fórmula para ser uma mãe perfeita.

Vai encontrar histórias, erros, acertos, aprendizados e, principalmente, a possibilidade de perceber que muitas das coisas que você sente, pensa ou vive também fazem parte da experiência de outras mães.

Porque nenhuma maternidade é igual, mas talvez, depois de ler estas páginas, você perceba que não precisa viver a sua maternidade se sentindo tão sozinha.

Este é o livro que eu gostaria de ter lido antes de ser mãe.

Introdução

Introdução

No momento em que decidi engravidar, comprei mais de 20 livros sobre maternidade. Eu queria entender o universo em que estava entrando. Queria saber pelo menos o básico, ter alguma ideia de como educar uma criança... Eu estava buscando qualquer tipo de ajuda.

E, sinceramente? Eu consegui.

Os livros realmente me ajudaram muito. Coisas que poderiam ter me deixado desesperada, pensando "será que isso é normal? Era para ser assim?", foram dúvidas que eu simplesmente não tive.

Tirei muitas dúvidas, encontrei ideias de como lidar com situações diferentes e me senti mais preparada para algumas das coisas que estavam por vir. Tudo isso com o auxílio dos livros que li.

Mas não, não tinha tudo neles.

Na verdade, não tinha nem 50% de uma maternidade real.

E não é por culpa dos autores. É que seria impossível compartilhar tudo, todas as situações, todas as dúvidas, todos os sentimentos... até porque nenhuma maternidade é igual.

E eu te garanto: você vai passar por coisas que eu não passei. Assim como eu passei por coisas que você talvez nunca vai passar.

E é justamente aí que este livro começa.

A intenção dele não é te ensinar a ser uma mãe perfeita (quem me dera ser uma), mas compartilhar com você tudo o que eu vivi. Dos acertos aos erros. Das dúvidas aos aprendizados. Dos dias leves aos dias difíceis.

Quero dividir com você aquilo que funcionou para nós, aquilo que não funcionou, as escolhas que fiz, as que faria diferente hoje e tudo o que fui descobrindo ao longo do caminho.

Para que, quem sabe, você não precise carregar os mesmos pesos que eu carreguei. Para que algumas dores sejam mais curtas. Para que alguns medos sejam mais leves.

E, mais importante que tudo isso, para que sua maternidade seja um pouco mais gentil com você.

A minha intenção com este livro é dividir a nossa conversa em três grandes partes, acompanhando diferentes fases da maternidade.

Na primeira, vamos voltar ao começo de tudo: a gestação, o puerpério e a chegada do bebê. Quero falar sobre aquilo que acontece quando finalmente temos nosso filho nos braços, mas também sobre tudo o que acontece dentro de nós nesse processo.

Na segunda parte, vamos falar sobre amamentação, desmame e sono da criança. É uma fase em que vivi muitas experiências e acredito que tenho muito para compartilhar com você, principalmente sobre aquilo que funcionou para nós, as dificuldades que encontramos pelo caminho e tudo o que aprendi com elas.

Na terceira parte, vamos entrar em alguns dos desafios que aparecem conforme nossos filhos crescem: educação, limites, birras, conflitos e tantas outras dificuldades que fazem parte da infância e, consequentemente, da nossa maternidade.

Não quero te entregar uma fórmula pronta para ser mãe. Até porque, se ela existisse, provavelmente eu teria comprado um exemplar antes mesmo de engravidar.

Quero apenas sentar aqui, conversar com você e dividir aquilo que aprendi vivendo a minha própria maternidade.

Talvez você se reconheça em algumas histórias, ou encontre uma resposta para alguma dúvida. Talvez discorde de mim. Ou quem sabe, descubra uma possibilidade que nunca tinha considerado.

Mas se esse livro conseguir segurar a sua mão em algum momento, mesmo que seja só em um, então eu já vou ter atingido o meu propósito e tudo terá valido a pena.

Que este livro te traga informação, leveza, novas possibilidades e, acima de tudo, um pouco mais de gentileza para viver a sua própria maternidade.

A Parte Que Não Estava Nos Livros
I

Gestação, puerpério e chegada do bebê

O começo de tudo: a gravidez, o pós-parto e os primeiros dias com o bebê nos braços.

Capítulo 1

Criação

Quero começar esse livro te avisando uma coisa: sua forma de maternar ou educar não começa a ser formada quando você engravida, nem mesmo no momento em que seu bebê nasce.

A sua forma de conduzir a maternidade começa muito antes disso. Ela tem raízes na forma como você foi criada. E isso pode te trazer um alívio enorme ou pode te deixar muito assustada de início.

Mas calma, você pode fazer diferente. Você pode quebrar um ciclo e iniciar um novo, muito mais amoroso e acolhedor do que o seu foi.

Só que, infelizmente, isso não é fácil. É algo que exige esforço, dedicação e, principalmente, muita força de vontade para escolher ser diferente todos os dias.

Mas eu te garanto que vale a pena.

Vale cada sorriso, cada momento vivido junto, cada memória construída. Transformar aquilo que pode ser uma dor para você, em uma lembrança leve, segura e cheia de amor para o seu filho, vai ser uma das suas maiores conquistas da vida.

A minha infância, por exemplo, é absurdamente diferente da infância que estou proporcionando ao meu filho.

Minha mãe não foi uma mãe ruim ou negligente, muito pelo contrário. Ela é a pessoa que mais inspira minha maternidade, a minha melhor amiga desde pequena até os dias de hoje. Mas, ainda assim, foi diferente em muitos aspectos.

Para começar, ela foi mãe aos 16 anos.

Era praticamente uma criança tendo que cuidar e educar outra criança. E, mesmo assim, eu tenho um orgulho imenso da mãe que ela foi para mim, diante de tudo o que viveu.

Na época, ela morava na casa dos meus avós, um apartamento pequeno onde vivia uma família de cinco pessoas - minha mãe, meus avós e seus dois irmãos - e foi ali que eu nasci.

Eles não tinham uma boa condição financeira. Então eu era mais uma boca para alimentar, mais uma pessoa para dividir o mesmo quarto, mais uma responsabilidade em uma família que já tinha pouco para compartilhar.

Meus pais se separaram quando eu ainda tinha meses de vida. E meu pai também não tinha condições financeiras para sustentar a mim e a minha mãe. Então eu vivi até os meus oito anos em um caos organizado.

Minha mãe se desdobrava para cuidar de mim, trabalhar e estudar. E, no meio disso, eu ficava aos cuidados da minha avó.

Mas não foi uma infância ruim. Tenho muitas memórias maravilhosas dessa época. E a conclusão a que chego é que uma criança não se importa se ela tem que dividir o quarto, se não pode comprar besteiras no mercado para encher geladeiras e armários da cozinha.

Ela não se importa com a grande maioria das coisas com as quais nós, adultos, nos preocupamos quando descobrimos que um bebê está a caminho.

Hoje em dia minha mãe me conta todas as dificuldades que tivemos naquela época... Mas não são essas as memórias que eu guardo.

O que me lembro é do cheiro do pão quentinho que meu avô trazia todas as tardes, depois da escola. Das brincadeiras loucas que meu tio inventava todos os dias. Da felicidade de encontrar minha mãe depois de quase um dia inteiro sem vê-la. Do miojo, que parecia uma refeição maravilhosa no final do dia - porque, no fim, era o que tínhamos. Dos dias que minha avó me deixava ajudar ela a preparar o almoço. Dos biscoitos mais baratos que comprávamos, já que era o possível dentro da nossa realidade, mas que, até hoje, eu compro só para sentir, de novo, o gostinho da minha infância.

Mas claro, teve pontos negativos que me marcaram, mas só me recordo de um deles ter a ver com condições financeiras. O único trauma que tenho nesse sentido se deu pelo local onde morávamos. O prédio dos meus avós era literalmente na frente de uma das comunidades do Rio de Janeiro. Não seria possível contar quantas madrugadas de sono foram interrompidas por barulho de tiros, o desespero para sair de frente das janelas e o medo que minha mãe sentia de deixar eu dormir minimamente longe dela. Não que fosse possível, já que no nosso quarto tinha um triliche, minha tia dormia na parte de baixo, meu tio na parte de cima e eu e minha mãe na cama de solteiro do meio.

Aos 16 anos, cuidar de uma criança, na mesma casa dos seus pais, não foi uma tarefa das mais fáceis para a minha mãe. Teve muitos gritos e disputas de quem mandava mais em mim. Teve uma adolescente deixando de viver o que os adolescentes vivem, para assumir a responsabilidade de criar uma criança.

E essa parte sim, me marcou. Claro, não culpo a minha mãe por isso, pelo contrário, acho que ela fez mais do que podia nas condições em que se encontrava. E depois que me tornei mãe, tive ainda mais admiração pela forma como ela me criou.

No meio disso, ela conheceu meu padrasto, eu tinha apenas um ano de idade quando ele entrou na minha vida. E posso dizer sem medo que ele foi a minha maior figura paterna no meio desse caos em que nasci.

Nunca tive uma proximidade muito grande com meu pai biológico. Até os meus oito anos, ainda passava finais de semana alternados entre ele e a minha mãe, mas nunca foi uma relação de pai e filha como a maioria das pessoas tem.

Se sinto que isso me afetou de alguma forma? Com toda certeza que sim. Isso ainda me afeta, mesmo madura e com maiores entendimentos de tudo o que eles passaram. Minha mãe sentia isso, e sempre tentou suprir, de alguma forma, o que deveria ter vindo dele.

Quando eu tinha oito anos, meu padrasto passou em um concurso público para outra cidade. Com isso, eles se casaram e nos mudamos para uma cidade completamente diferente de onde morávamos antes. O que, consequentemente, acabou me afastando afetivamente ainda mais do meu pai.

Minha vida mudou completamente desde então. As condições financeiras eram outras. Tinha até um quarto para chamar de meu. O problema era que eu estava acostumada a dormir em um quarto com quatro pessoas, e foi muito difícil para mim lidar com a sensação de dormir sozinha. Foi um dos meus maiores traumas de infância. O medo e o sentimento de fracasso por não conseguir o que a grande maioria das crianças na minha idade já conseguiam há muito tempo: dormir sozinha. E no decorrer desse livro você vai perceber o quanto isso mexeu com a minha maternidade também.

Te contei praticamente toda a minha infância, espero que isso te faça entender e se sentir mais próxima de mim nesse livro. Acredito que perceberá que muitas lembranças boas da minha infância eu dei continuidade e passei isso para o meu filho. Mas também muitos erros que cometi ao longo da minha maternidade estão ligados a coisas que passei enquanto ainda era uma criança.

Reproduções de atitudes, escolhas que tomei me baseando em meus traumas, formas como resolvi lidar com o meu filho para evitar circunstâncias que me causaram lembranças que não gosto de ter.

Se acho que acertei em todos esses momentos? Você vai ver que não, longe disso. Acabei criando outros problemas, tomando atitudes para evitar sentimentos e frustrações que sequer cabiam ao meu filho, e sim, a mim.

Mas acredito que isso faz parte. Toda mãe toma decisões pensando no melhor para o seu filho, mas isso não significa que estamos certas em todas elas. É importante que você tente separar os seus traumas daquilo que é realmente necessário para seu filho(a).

Mas isso não é fácil.

Muitas vezes, tentamos curar neles o que foi machucado em nós, e como consequência disso, acabamos criando problemas que nem precisavam existir.

Por outro lado, existem tipos de criação que precisam, sim, ser questionados. Principalmente quando falamos de educação baseada na violência ou na falta de respeito com a criança.

Por isso, eu te convido a te fazer uma pergunta: isso fez bem para mim? Isso me tornou uma pessoa melhor ou apenas me ensinou a ter medo de errar?

Se sua resposta vier acompanhada de desconforto... se a lembrança pesar de alguma forma... Talvez seja um sinal. Um sinal de que esse ciclo precisa ser quebrado.

E que existe, sim, uma outra forma de educar. Uma forma mais consciente, mais respeitosa e muito mais leve.

E é isso que eu quero te mostrar aqui.

Te ajudar a educar e ensinar o seu filho sem precisar repetir os mesmos métodos que um dia usaram com você.

Capítulo 2

Tentante

Se você começou esse livro e ainda está tentando engravidar, sinta-se abraçada. Eu fui uma tentante como você — e estou sendo novamente, mas isso é assunto para um outro livro, quem sabe. Assim que decidi que queria engravidar, comprei uns 20 livros de maternidade. Eu estava ansiosa, eufórica, mal podia esperar pelo momento em que estivesse carregando o meu bem mais precioso na barriga.

Mas essa parte não foi como eu esperava. Após 7 meses de tentativa sem resultados, fomos fazer exames para descobrir se tínhamos algum tipo de dificuldade para engravidar, já que estávamos no auge dos 25 anos e normalmente é para ser bem rápido e fácil esse processo nessa idade.

Foi quando meu médico explicou que existia uma alta probabilidade de eu ter a síndrome dos ovários policísticos. Admito que esse "diagnóstico" na época me trouxe um certo conforto, já que meu maior medo era ser infertil. E esse não era o caso tendo SOP. Tem sim, uma maior dificuldade com o processo, mas não significava que eu jamais seria mãe.

Após a suspeita, meu médico me passou um tratamento, o qual fiz por 4 meses até conseguir engravidar.

Foi praticamente um ano da minha vida sendo tentante, e te digo sem sombra de dúvidas que foi o ano mais difícil da minha vida.

Cada teste negativo, cada mês que se passava, cada mínima coisa que acontecia no meu corpo e eu acreditava que poderia ser um sintoma e finalmente estar grávida, mas dias depois a menstruação descia... Tudo isso foi demais para mim.

Amigos e pessoas próximas não conseguiam entender a dimensão daquele sentimento. Era o maior sonho da minha vida sendo colocado à mesa com a possibilidade de talvez nunca ser realizado. Meses sem saber se pelo menos algum dia eu poderia ser mãe.

Eu fui uma tentante que carregava aquele sonho desde pequenininha, quando me perguntavam "o que você quer ser quando crescer?" e eu respondia "eu quero ser mãe".

Algo dentro de mim sabia que eu tinha nascido para aquilo, e até hoje tenho esse sentimento. Eu nasci para ser mãe.

Até hoje me lembro do sentimento de ver o teste dar negativo pela vigésima vez. Lembro nitidamente do mês que eu tinha certeza que tinha engravidado — cheguei até a sentir enjoo. A menstruação atrasou 5 dias, algo que nunca tinha acontecido após o início do tratamento. Fiz aquele teste tão esperançosa... Eu tinha certeza que daria positivo. Quando fiz o xixi para realizar o teste, a menstruação desceu junto. Foi o maior baque de todos aqueles meses. Chorei até adormecer aquele dia. Meu marido tentava ser meu suporte, mas naquele ponto nada mais me acalmava.

No dia seguinte eu me revoltei. Desinstalei todos os aplicativos que acompanhavam os ciclos, fiz muito esforço para não pensar e nem lembrar daquele assunto, li livros e mais livros aleatórios e maratonei séries. Eu não aguentava mais pensar e ler sobre aquele assunto, somente me causava frustração. Então apenas fingi que não me importava mais. Uma grande mentira, claro. Mas admito que foi um alívio fazer aquilo.

Naquele mês eu sequer sabia que dia minha menstruação tinha que descer, não sabia se tinha feito relações na data em que estava fértil, pois não sabia essas coisas de cabeça e não tinha mais o aplicativo para acompanhar.

Eu realmente consegui colocar em segundo plano o assunto "gravidez" naquele mês.

Até que um dia eu acordei e simplesmente resolvi fazer um teste de gravidez. Eu não sabia quando minha menstruação tinha que descer, então não sabia se estava atrasada ou não. Eu apenas queria fazer um teste.

E lá estava meu sonhado positivo. Quem diria né? O único mês que eu tinha certeza que não tinha chances de estar grávida.

Então se você é tentante, me permita te dar uma dica. Faça seus exames, confira se está tudo bem com o seu corpo para conceber um bebê. E depois, apenas, esqueça.

Não estou falando que vai ser fácil, afinal quando estamos tentando engravidar, é muito difícil não ficar obcecada no assunto. Ele se torna o ponto central da sua vida. Até as plataformas digitais começam a te entregar conteúdos de bebês. Parece que o universo fica ansioso junto com você.

Mas tente focar em outra coisa sempre que possível. Porque a ansiedade é inimiga da tentante. E eu sou extremamente ansiosa, isso dificultou muito para mim.

Acredite, quando você menos esperar... No mês que você sequer lembrar que está atrasada... Seu positivo chegará.

Capítulo 3

Gestação

Bem-vinda à gestação!

Aqui a vida não muda aos poucos, ela te vira do avesso.

É aqui que a maternidade deixa de ser uma ideia distante e começa, de verdade, a tomar forma.

E muitos te preparam para o enjoo que você sentirá nos primeiros meses, para as mudanças que você vai sentir no seu corpo (muitas vezes até fazem você ter medo delas), te enchem de frases egoístas e aterrorizadoras... Mas junto com tudo isso, vem algo que ninguém te prepara. Mas eu vou te preparar.

O peso. O peso das escolhas, das dúvidas, das responsabilidades... O peso de ser mãe.

Desde o momento em que o positivo aparece no seu teste de gravidez, se inicia uma nova versão de você mesma. Uma versão que precisa decidir, escolher, pesquisar e acertar, muitas vezes sem saber nem por onde começar.

É obstetra, pediatra, exames, via de parto, hospital...

Ah, querida mamãe...

Tá desesperada? Calma, você vai se acostumar.

É só começo.

O peso cai em cima de você de uma vez, sem aviso. E todas as escolhas que você tomar serão aterrorizantes.

Eu tive tanto medo de fazer essas escolhas na minha gravidez. Medo de não escolher a melhor opção, medo de errar antes mesmo desse bebê nascer.

E, no fim de tudo... acertei em apenas duas dessas escolhas.

E sabe o que vem logo depois do erro? A culpa.

Dê as boas-vindas a ela, porque, a partir de agora, vocês vão caminhar juntas por muito tempo.

A culpa, quase sempre, vira o sobrenome das mães. Ela aparece em pequenas decisões, nas grandes também, nos dias bons e, principalmente, nos dias difíceis.

Mas deixa eu te dizer uma coisa que talvez você precise escutar: Você não precisa se carregar tanto. Não precisa se culpar tanto.

Você é humana e é humanamente impossível saber tudo, prever tudo e acertar sempre.

Sim, existem mães que parecem ter acertado em tudo durante a gestação. Mas, em algum momento, elas também vão errar. Assim como eu, assim como você. Assim como todas nós.

Porque a maternidade não é sobre acertar sempre. É sobre continuar, mesmo cheias de dúvidas. Aprender errando. E, principalmente, é sobre entender que isso tudo é só o começo de uma vida inteira de escolhas.

Ou você acha que isso passa conforme eles crescem? Não se iluda. A culpa muda de forma. Se adapta à fase, ao momento, às novas decisões que surgem. Talvez ela até diminua um pouco quando eles amadurecem e começam a fazer as próprias escolhas.

Mas desaparecer? Nunca!

A verdade é que a gestação é um perfeito "test drive" da maternidade. Nesse período você começa a experimentar, ainda que de forma mais leve, tudo aquilo que vai se intensificar quando o bebê nascer. Tipo as fases fáceis do videogame, em que você vai pegando prática, para conseguir derrotar o chefão depois.

No momento em que descobre a existência daquele pequeno ser dentro da sua barriga, você já começa a deixar de fazer coisas que antes eram parte da sua rotina. A taça de vinho de sexta à noite com o marido fica de lado, os exercícios de maior impacto, de que você tanto gostava, já não fazem mais sentido, e até aquele sushi do seu restaurante preferido entra na lista de "depois eu volto".

Isso porque, mesmo que você não perceba de imediato, algo já começou a mudar dentro de você. Suas prioridades se reorganizam silenciosamente. Seu filho passa a ocupar o centro dos seus planos. E quando você se dá conta, tudo o que você considera fazer já passa por um filtro: "isso é bom para o meu bebê?"

A verdade é que durante a gravidez, você tenta se preparar. Tenta preparar o psicológico para o que está por vir, mesmo na maioria das vezes não tendo noção alguma do que é que está por vir. Eu mesma, por ter lido tantos livros e querer tanto aquele bebê, achei que estava preparada para qualquer coisa. Meu maior pensamento era "Eu queria tanto isso, esperei tanto por isso, sei que posso ser uma mãe maravilhosa e vou amar cada segundo da minha maternidade".

E então... O bebê nasce. E a realidade bate à porta.

Capítulo 4

O puerpério

"Quando seu bebê nasce, nasce também uma mãe." Você já deve ter escutado essa frase, talvez até mais de uma vez. Ela não é uma mentira. É incrível como o nosso cérebro funciona. Realmente viramos outra pessoa quando nosso filho nasce.

Tudo aquilo que você imaginou durante os nove meses de gestação vem junto com a realidade dos fatos. Vem acompanhada de muitas inseguranças, receios e, às vezes, mesmo sendo algo que você desejou muito, um luto por uma vida antiga que nunca mais será a mesma.

Lembro como se fosse hoje de uma madrugada em que meu filho já tinha acordado quatro vezes. Ele tinha apenas um mês de vida.

Em um desses momentos, saí do quarto e encontrei meu marido na sala. Abracei ele e comecei a chorar sem conseguir parar. No meio do choro, soltei, quase sem pensar: "o que foi que eu fiz com a minha vida?"

E o mais confuso é que, ao mesmo tempo em que eu dizia aquilo, eu amava meu filho de uma forma que eu nunca tinha sentido antes. Perder ele seria, sem dúvida, o fim do mundo para mim.

Mas, ainda assim, eu estava desesperada.

Desesperada porque a minha vida tinha mudado completamente. E, no fundo, eu sabia que nunca mais voltaria a ser como antes.

Dormir quando estivesse com sono e acordar descansada já não era mais uma opção. Tomar um banho com calma, sem medo de estar demorando demais, também não fazia mais parte da minha realidade.

É claro, nada dessas coisas seria para sempre, era uma fase. Mas ter aquela vida, exatamente como era antes, eu realmente nunca mais teria.

E, eu acredito, que está tudo bem você viver esse luto. Ele faz parte do processo. Quando ele acaba e você se acostuma com a sua nova vida, a antiga vira tão insignificante que você pensa "como eu consegui viver sem esse bebê por tanto tempo?"

Então, antes de qualquer coisa, não se culpe por esse sentimento. Esses pensamentos podem assustar, eu sei, mas eles não te definem. Apenas fazem parte de um momento intenso e delicado, em que seu corpo, sua mente e suas emoções estão passando por mudanças profundas. Seus hormônios estão desregulados, sua vida mudou por completo. E ninguém espera que você atravesse tudo isso sem sentir nada. Você não é um robô, sentir faz parte.

Permita-se reconhecer esses sentimentos com carinho, sem se julgar. Em vez de lutar contra eles, tente acolhê-los e entender de onde vem. Isso por si só já é um passo enorme.

Mas também é importante dizer: se essa tristeza começar a pesar demais, se você sentir que está difícil levantar da cama, cuidar de si ou até se conectar com o seu bebê, procure ajuda. Você não precisa passar por isso sozinha. O puerpério pode, sim, trazer oscilações emocionais intensas, e isso é mais comum do que parece.

Buscar apoio profissional não é fraqueza, é cuidado. Às vezes, seu corpo só precisa de suporte, seja emocional, psicológico ou até físico. E tudo bem precisar disso.

Essa fase pode ser desafiadora, mas ela não precisa ser enfrentada no limite da sua dor. Com apoio, acolhimento e tempo, as coisas vão se reorganizando. E, aos poucos, em meio a tudo isso, você vai se encontrar, inclusive no amor pelo seu filho, que cresce e se fortalece junto com você.

O meu puerpério, sinceramente, foi muito mais leve que o de muitas mães. E eu sei exatamente o porquê. Eu tive suporte. Muito suporte.

Nós praticamente montamos uma força-tarefa, e se você tiver a possibilidade de contar com uma rede de apoio, eu te aconselho, de coração, a fazer o mesmo.

Quando meu filho nasceu, organizamos tudo de uma forma muito clara: como eu amamentava e passava praticamente 95% do tempo com ele, meu único papel era cuidar do bebê. Eu me permiti viver isso por completo. Amamentar, aproveitar cada momento com ele e descansar sempre que ele dormia.

Enquanto isso, minha mãe vinha uma vez por dia à minha casa e cuidava do restante. Ela limpava, organizava, fazia comida... resolvia o que fosse necessário. Isso tirou um peso enorme de mim. Eu não precisava me preocupar com a casa, com a bagunça ou as refeições.

E o meu marido também foi essencial nesse processo. Ele tirou férias do trabalho, e isso fez toda a diferença. Nos primeiros 15 dias do Noah não precisei ficar sozinha em nenhum momento. Enquanto eu cuidava do nosso filho, ele cuidava de mim. Me lembrava de comer, levava comida e bebida durante o dia, ficava com o bebê para que eu pudesse tomar um banho com calma... Ele estava ali, disponível para tudo o que eu precisasse. E claro, para auxiliar com o bebê que estava entrando naquele momento em nossas vidas.

E sem querer parecer exagerada, mas já sendo, foi um puerpério maravilhoso. A parte mais desafiadora foi lidar com os hormônios bagunçados e com essa nova vida que ainda estava se encaixando dentro de mim.

Eu entendo que essa não é a realidade de muitas mães, mas sinceramente, não sei dizer o que teria feito sem a minha rede de apoio nesse período.

Como eu disse antes, realmente acredito que nasce uma mãe junto com o bebê. E essa mãe se adapta a qualquer circunstância para a sobrevivência dos dois. Por isso, tiro o meu chapéu para todas as mães que passaram por esse processo sem auxílio, sem um ombro amigo, alguém que olhasse e realmente estivesse ali por vocês.

Vocês são guerreiras, são fortes, são imbatíveis... Vocês são MÃES.

Após o processo do luto pela antiga vida, eu passei pelo que gosto de chamar de "lavagem cerebral". Brincadeiras à parte, mas eu realmente mudei muito. Até gostos e estilo mudaram radicalmente.

Não me identificava com 90% das peças do meu guarda-roupa. Não tinha vontade de usar a maioria delas, acabava repetindo apenas os looks com os quais eu me sentia bem. E não tinha nada a ver com mudanças no meu corpo nem nada do tipo. Até porque, meu filho sugou até minha alma, e voltei para o meu peso de antes muito rapidamente. Na verdade, até hoje sigo com menos 10kg do que pesava antes da minha gravidez. E isso não me incomoda nem um pouquinho, pelo contrário, eu amo meu corpo da forma que está agora.

O "problema" foram meus gostos mesmo. Eles mudaram completamente, meu estilo virou outro.

Sem contar meus perfumes, dos quais nunca mais consegui voltar a usar e gostar. E olha que eu nem tive enjoo de nenhum deles durante a gravidez. Simplesmente deixei de gostar daqueles cheiros.

Também me descobri como mãe super protetora desde esse período. Demorei muito para conseguir fazer qualquer coisa sem o meu bebê. Meu filho só foi dormir longe de mim, pela primeira vez, somente depois dos dois anos de idade.

Mas existem mães que conseguem "desgrudar" mais cedo. E isso está longe de ser uma crítica. Pelo contrário, eu gostaria de ter conseguido isso também. Eu só fui me reencontrar como mulher quando meu filho iniciou na escola, já com um ano e meio.

E é importante dizer: essa decisão não veio de forma leve. Coloquei ele na escola, após muitas orientações de especialistas, que apontaram um atraso na fala e indicaram que a escola ajudaria muito nesse quesito. Se dependesse apenas de mim, eu teria esperado mais. Esperaria, pelo menos, que ele conseguisse se comunicar comigo, caso algo acontecesse.

Mas hoje eu reconheço que foi o momento certo.

Certo para ele, que começou a desenvolver muito mais na fala e em muitos outros pontos. E certo para mim, que, pela primeira vez em muito tempo, me vi sozinha.

Lembro perfeitamente do primeiro dia. Deixei ele na escola, entrei no carro... e fiquei parada. Pensei "Tá... e agora?"

Tomo um banho? Vou para a casa? O que se faz com o tempo livre mesmo?

Hoje eu até acho engraçado. Mas naquele momento, foi um choque perceber o quanto eu estava completamente imersa na maternidade, a ponto de não saber existir mais fora dela.

Por isso, admiro profundamente as mães que conseguem se reencontrar mais cedo. E, talvez, em uma próxima gestação, isso seja mais leve para mim.

Ou talvez não.

Bom... Quando chegar essa hora, prometo compartilhar com vocês.

Capítulo 5

O pai do bebê

O título desse capítulo já diz muito sobre ele. Nesse momento, nós não vamos conversar sobre o seu marido (caso sejam casados), nem namorado (caso estejam juntos). Agora nós vamos falar sobre o pai do seu filho.

E sim, existe uma diferença. Uma diferença que você precisa enxergar antes de cometer os mesmos erros que eu.

Quando meu filho nasceu, eu não consegui aceitar muitas das ajudas que vinham do pai dele. Na minha cabeça, só eu sabia cuidar do bebê. Ele mal sabia ninar aquela criança... como poderia cuidar bem dele sem mim por perto?

Mas hoje eu quero te contar algo que só fui perceber anos depois, e que talvez você consiga enxergar ainda na fase de recém-nascido.

Você também não sabe nada.

Você aprende porque precisa aprender. Porque está ali, todos os dias, fazendo, tentando, errando e acertando.

Você sabe mais que o pai, mas não porque nasceu sabendo. E sim, porque faz mais, porque está presente nesse processo de aprendizagem.

E aqui está o ponto: se você não permitir que o pai também aprenda, ele nunca vai se sentir seguro. Nunca vai desenvolver a segurança que você sente. Nunca vai chegar no mesmo nível.

Não porque ele não é capaz, mas porque não teve espaço.

E para você sentir confiança no pai do seu filho, ele precisa sentir confiança no que está fazendo.

Então dê espaço para ele ser pai. Intercale as madrugadas com ele. Deixa ele dar banho no bebê. Deixa ele se sujar e reclamar do cheiro das fraldas de coco, mas não interfira.

Quando eu permiti que meu marido tentasse, ele realmente tentou. Porque, às vezes pode até não parecer, mas eles querem ajudar. Querem ser úteis. E eles realmente são, quando damos a oportunidade de serem.

E, para ser sincera, se vocês dois tiverem uma boa relação, baseada em afeto e respeito, não existe nada melhor que ter um parceiro para dividir esse caos com você.

É acolhedor ter um ombro amigo para chorar no final do dia quando tudo pesa. Assim como é especial ter com quem comemorar as pequenas vitórias, como as primeiras noites inteiras de sono, sem despertares.

Compartilhar essas experiências com a pessoa que você escolheu para caminhar ao seu lado torna tudo mais leve.

Então, relaxe. Divida o peso dos seus ombros. Vivam isso juntos.

Porque essa fase passa rápido e, um dia, por mais contraditório que pareça, vocês vão sentir saudade dessa bagunça. E ver a pessoa que você ama se tornar pai te faz se apaixonar pela segunda vez por aquela pessoa.

Mas eu também preciso te dizer algo, com muito carinho:

Nem todas as mães têm ao lado um parceiro disposto a dividir esse momento. E, se esse for o seu caso, eu sinto muito. Porque realmente faz falta. Faz diferença.

Mas isso não significa que você não vai dar conta.

Existe em você uma força que talvez você ainda nem conheça. Uma força quase instintiva, que nasce junto com o seu filho. Algo que parece maior do que nós, quase sobrenatural mesmo.

Você aprende, se adapta, se supera... um dia de cada vez.

Vai ser mais cansativo, sim. Mais desafiador, sem dúvida. Vão existir momentos em que você vai se sentir exausta, sobrecarregada e até questionar se consegue continuar.

Não é justo com você, mas você consegue.

Porque, quando se trata do seu filho, você descobre um tipo de força que não se explica. E mesmo nos dias mais difíceis, você não estará falhando. Você estará sendo exatamente o que o seu filho precisa.

Respira. Vai no seu tempo. E, sempre que puder, aceite ajuda de onde for que ela vier. Amigos, família, uma rede de apoio. Você não precisa fazer tudo sozinha... mas, se precisar, tenha em mente: Você é capaz.

A Parte Que Não Estava Nos Livros
II

Amamentação, desmame e sono

O que funcionou, o que não funcionou, e tudo o que a rotina do dia a dia ensinou pelo caminho.

Capítulo 6

Amamentação

Admito que esse é um assunto sensível para mim. Talvez um dos mais difíceis de escrever neste livro.

Mas é justamente por isso que eu sinto que preciso falar sobre ele.

Eu olho para trás e reconheço que errei em alguns pontos. E não digo isso para me culpar ou para dizer que existe uma única forma certa de fazer as coisas. Digo porque gostaria que alguém tivesse me contado o que poderia acontecer antes de eu tomar algumas decisões.

Quero te contar tudo. As coisas boas, as escolhas que funcionaram por um tempo, os erros e, principalmente, o quanto foi difícil sair de uma situação que, no começo, parecia perfeita.

Desde a minha gravidez, eu tinha o sonho de amamentar.

Minha mãe nunca teve leite em grande quantidade para conseguir amamentar, nem a mim, nem ao meu irmão. Por isso, durante a gravidez, eu tinha muito medo de não conseguir realizar esse sonho.

Quando meu filho nasceu, esse não foi o problema. Nem de longe.

Eu tinha muito leite. Não tive rachaduras nos bicos, não tive grandes dificuldades para amamentar e, nos primeiros dias, lembro de pensar:

"Uau, que sorte a minha!"

Eu estava feliz. Tinha conseguido realizar aquele sonho.

O meu problema com a amamentação veio meses depois.

Com medo da tal "confusão de bico", não ofereci chupeta ao Noah. Eu nunca tive nada contra a chupeta. Na verdade, depois, eu até gostaria que ele tivesse aceitado. Tentei algumas vezes, mas ele nunca teve interesse. Nunca aceitou.

Hoje, olhando para trás, acredito que, se eu tivesse oferecido desde o início, talvez ele tivesse aceitado com mais facilidade. Mas isso é uma daquelas coisas que a gente só consegue pensar depois que vive.

O que eu não percebi na época foi que o peito começou a ocupar um lugar muito maior do que apenas o da alimentação.

As mamadas começaram a se espaçar, como era esperado. Mas, toda vez que o Noah acordava, eu oferecia o peito para fazê-lo voltar a dormir.

Eu não fazia isso pensando: "Vou criar uma associação de sono."

Eu simplesmente queria que meu filho dormisse.

E queria dormir também.

Só que, sem perceber, fui ensinando ao Noah que acordar significava receber o "tetê". E, em vez de os despertares diminuírem, eles começaram a ficar cada vez mais frequentes. Até chegar ao ponto em que ele acordava a cada vinte minutos procurando o peito.

Vinte minutos.

Eu mal conseguia fechar os olhos e ele acordava novamente.

E eu colocava o peito na boca dele.

Ele dormia.

Eu tentava dormir.

Pouco tempo depois, ele acordava de novo.

E tudo começava outra vez.

Aquilo foi me destruindo aos poucos.

Eu estava exausta. Não era apenas "estar com sono". Era não conseguir descansar de verdade. Era passar a noite inteira em pequenos intervalos de sono, sem nunca chegar àquela sensação de que você realmente dormiu.

Eu precisava descansar.

Foi então que tomei uma decisão que, naquele momento, pareceu a melhor coisa que eu poderia fazer.

Levei o Noah para a minha cama.

Assim, eu conseguia amamentar deitada. Ele dormia, eu dormia e, finalmente, nós dois conseguíamos descansar.

No primeiro dia em que fiz isso, senti como se tivesse descoberto um tesouro.

Eu dormi como não dormia havia meses. Acordei disposta. Parecia perfeito.

E foi assim que o Noah "se mudou" para a minha cama.

Só que, com o tempo, algo começou a mudar.

Ele passou a precisar do peito para continuar dormindo.

Não era mais apenas para matar a fome. Era para pegar no sono. Era para voltar a dormir e permanecer dormindo.

E, principalmente, era para garantir que eu continuasse ali.

Se o peito saía da boca, ele acordava.

Se eu tentava me virar, ele acordava.

Se eu tentava me afastar, ele acordava.

Se eu simplesmente tirava o peito da boca depois que ele dormia, alguns minutos depois ele estava procurando novamente.

E foi aí que eu percebi que tinha virado uma chupeta humana.

Eu passei mais de um ano dormindo praticamente na mesma posição. Mais de um ano indo dormir na hora em que meu filho dormia e acordando quando ele acordava.

Eu não tinha mais aquele momento em que a criança dorme e você pensa: "Agora eu posso respirar um pouco."

Não.

Se ele dormia, eu precisava ficar ali. Se eu saía, ele acordava. Se eu tirava o peito, ele acordava. Se eu tentava mudar de posição, ele acordava.

Eu não conseguia assistir a um episódio de uma série.

Não conseguia tomar um banho tranquila.

Não conseguia simplesmente deitar e descansar enquanto meu filho dormia.

Eu estava presa ao sono dele.

Eu me tornei prisioneira do sono do meu próprio filho.

E essa é uma sensação muito difícil de admitir, porque eu amava amamentar. Eu amava aquele momento com ele, a proximidade, o carinho, a sensação de que eu era o lugar onde ele encontrava conforto.

Mas, ao mesmo tempo, eu estava exausta.

As duas coisas podiam existir juntas.

Eu podia amar amamentar e, ainda assim, estar desesperada para conseguir dormir sem precisar colocar o peito na boca do meu filho a cada poucos minutos.

E acredite: eu tentei mudar isso muitas vezes.

Quando ele tinha oito meses, chamei minha mãe para me ajudar. Ela e meu marido se revezaram com o Noah durante a noite.

A missão parecia simples: fazer o Noah dormir sem o peito.

Só que não teve absolutamente nada de simples naquela noite.

Nós ficamos acordados até às cinco da manhã. Eu passei a madrugada inteira com vontade de chorar. O Noah chorava. Eu chorava. Minha mãe tentava. Meu marido tentava.

E eu só conseguia pensar no quanto aquilo estava sendo difícil.

Até que, no final, eu desisti.

Dei o peito e ele dormiu.

E eu senti aquele misto de alívio e frustração. Alívio porque, finalmente, ele tinha dormido. Frustração porque eu sabia que tinha voltado para o mesmo lugar.

E assim eu segui.

Continuei amamentando, oferecendo o peito para fazê-lo dormir, acordando inúmeras vezes durante a noite e dormindo pouco. Continuei cansada.

E continuei adiando a mudança porque, apesar de tudo, eu ainda não sabia como fazer diferente. E também tinha um medo enorme de tentar mudar e piorar ainda mais as coisas.

Só tomei uma decisão definitiva quando o Noah completou um ano e meio.

A essa altura, eu já sentia que ele entendia muito do que eu falava. E, principalmente, eu tinha chegado ao meu limite.

Não era mais apenas uma questão de "ele gosta de dormir mamando". Era uma questão de eu não aguentar mais viver daquela forma.

Eu precisava recuperar o meu sono.

Precisava recuperar o meu corpo.

Precisava conseguir dormir sem sentir que, a qualquer momento, precisaria colocar o peito na boca dele novamente.

E foi então que eu decidi dar um basta.

Resolvi começar o desmame noturno.

A retirada daquela associação foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na maternidade.

Porque eu não estava simplesmente tirando uma mamada.

Eu estava tentando desfazer uma associação que tinha sido construída durante meses e meses.

Para o Noah, peito significava sono.

Peito significava conforto.

Peito significava segurança.

Peito significava voltar a dormir.

E, durante muito tempo, eu tinha sido justamente a pessoa que ensinou isso a ele.

Por isso, quando decidi mudar, não foi só ele que precisou aprender uma nova forma de dormir.

Eu também precisei.

💡 Dicas de amamentação
1

O início da amamentação pode ser muito dolorido... ou não. E, mesmo com a pega correta do bebê, isso ainda pode variar de acordo com o seu corpo. Cada mulher vive essa fase de um jeito.

2

Nem toda dificuldade na amamentação é "normal". Dor persistente, fissuras, bebê que não ganha peso ou mamadas muito longas e ineficientes podem indicar que algo não está certo. Nesses casos, procure ajuda (consultora de amamentação ou profissional de saúde). Você não precisa passar por isso sozinha.

3

Conforme o bebê cresce, a necessidade de mamar durante a madrugada tende a diminuir e os intervalos vão se espaçando. Um recém-nascido, por exemplo, costuma mamar a cada 3 horas. Com o passar dos meses, isso pode ir para 4, 5 horas... Se o seu bebê acordar e você perceber que não é fome, evite oferecer o peito automaticamente. Tente outras formas de fazê-lo dormir: ninando, colocando no berço, fazendo carinho ou dando leves tapinhas no bumbum. O mais importante aqui é não criar a associação de que ele só consegue dormir mamando.

4

Se a sua escolha for a cama compartilhada, tudo bem, desde que seja feita com segurança e consciência.

Mas, se possível, evite amamentar nessa posição. Os bebês se acostumam muito rápido com aquilo que os favorece. E o que parece prático no início... pode acabar se tornando um grande desafio depois.

5

O conceito "livre demanda" não significa estar disponível 100% do tempo sem limites.

Amamentar em livre demanda é importante, principalmente no início. Mas, com o tempo, é saudável observar padrões e começar, aos poucos, a diferenciar fome de outras necessidades, como colo, sono ou conforto.

Muitas vezes o bebê busca o peito por conforto, segurança ou para pegar no sono. Isso é natural, mas, se virar a única forma de resolver tudo, pode te sobrecarregar lá na frente.

6

Amamentar não define o tipo de mãe que você é. Se for possível e for sua escolha, ótimo. Mas se houver dificuldades, limites ou decisões diferentes no caminho, isso não diminui o seu cuidado, o seu amor ou a sua maternidade. Não sinta culpa por isso.

Capítulo 7

O desmame noturno

Quando comecei o desmame do Noah, a primeira tentativa não deu muito certo.

Eu estava com muito medo de como seriam as noites sem nenhum tetê, já que, até aquele momento, ele precisava do peito tanto para adormecer quanto para continuar dormindo.

Então, por puro medo e me sentindo insegura com a situação, decidi começar o sono noturno daquele dia como sempre: com o peito.

A ideia era deixá-lo adormecer mamando e continuar oferecendo o peito normalmente até meia-noite. Ou seja, se ele acordasse nesse intervalo, eu faria exatamente o que fazia todas as noites: daria o peito.

Mas, da meia-noite até às cinco da manhã, eu tentaria fazê-lo voltar a dormir de outra forma.

Já adianto, não deu certo.

E hoje eu acredito muito que uma parcela enorme da culpa tenha sido a minha própria insegurança. Eu estava tão insegura com aquela decisão que, de alguma forma, passei essa insegurança para o Noah.

Acreditem: eles sentem tudo.

Na cabecinha deles, é quase como se pensassem: "Se a minha mãe não está segura de que isso vai dar certo, por que eu deveria estar?"

O resumo daquela noite foi: quando deu meia-noite e o Noah acordou, começou um choro sem fim. Ele de um lado, eu do outro, e nós dois sem fazer ideia de como melhorar aquela situação.

Ele ficou acordado até quase quatro horas da manhã. Eu já estava completamente exausta e, naquele momento, acabei oferecendo o peito.

Foi um completo desastre.

Quando amanheceu, eu sentia que não tinha evoluído absolutamente nada naquele dia. Na verdade, parecia que eu tinha dado um passo para trás.

Então desisti de prosseguir naquela semana.

Até que, em uma sexta-feira, alguma coisa mudou.

Eu acordei diferente.

Estava tranquila, paciente e, principalmente, me sentindo confiante e segura da decisão que estava prestes a tomar: a partir daquele dia, Noah não mamaria mais durante a noite.

Tomei algumas decisões que tornaram aquele processo muito mais leve para nós dois.

Decidi dividir o desmame em duas etapas. Porque, para mim, o problema nunca foi amamentar. Eu nunca me incomodei em dar o peito para o Noah. O que estava me cansando era sentir que eu precisava estar disponível a noite inteira, porque ele não conseguia voltar a dormir sem usar o peito como "chupeta".

Então, naquele mesmo dia, comecei o desmame noturno.

Uma das primeiras coisas que fiz naquele dia foi preparar o meu psicológico para a pior situação que poderia acontecer.

E qual seria o pior cenário daquela noite?

Ele não dormir. Chorar a madrugada inteira, em profundo desespero, sem conseguir se acalmar.

Foi para isso que eu me preparei. Eu me preparei para o caos.

Era uma sexta-feira. No sábado e no domingo, meu marido não trabalhava, e isso tornava tudo muito mais tranquilo. Caso acontecesse o pior cenário possível, ainda teríamos dois dias para tentar melhorar um pouco as noites de sono, contando com a ajuda dele durante a madrugada, sem aquela preocupação de estar atrapalhando o sono de quem precisaria trabalhar no dia seguinte.

A segunda coisa que fiz foi conversar com o meu filho. Passei aquele dia inteiro preparando o Noah para o que aconteceria à noite. Expliquei que, a partir daquela noite, o "tetê" também precisaria dormir. Falei que daríamos tchau para ele e que ele só voltaria pela manhã, porque estava muito cansado e precisava descansar.

Ele tinha um ano e meio. Ele entendeu tudo? Não.

Mas eu tenho certeza de que o cérebro dele já estava processando a informação de que alguma coisa mudaria naquela noite.

Quando anoiteceu, fiz toda a rotina que sempre fazíamos.

Dei banho nele, coloquei uma roupinha confortável para dormir, exatamente como em todas as outras noites. Enquanto fazia tudo isso, continuava reforçando que naquela noite o tetê iria dormir.

Quando fomos para a cama, não apaguei as luzes. Sentei na cama e expliquei que ele poderia mamar antes de o tetê ir embora. Deixei que mamasse o quanto quisesse, mas, dessa vez, eu conversava com ele e tentava mantê-lo acordado.

Quando ele terminou, falei: "Agora vamos dar tchau para o tetê, porque ele vai dormir."

Ele deu tchau. E eu pensei: "Será que ele está entendendo o que está prestes a acontecer?"

Depois do tchau para o tetê, apaguei as luzes e deitei na cama com ele. No mesmo instante, ele me pediu para mamar.

Naquele momento, eu já percebi que a situação provavelmente iria desandar.

Expliquei novamente que o tetê tinha ido dormir e que não teria mais tetê durante a noite. Ele nem esperou eu terminar de falar.

O choro começou.

Foram longos quarenta minutos de um choro intenso. Um choro de desespero. Ele se babava de tanto chorar. Não me permitia chegar perto, encostar ou abraçá-lo. Todas as vezes que eu tentava tocar nele, ele se afastava de mim. E o choro não dava nenhuma trégua.

Ali, eu confesso, por dentro me desesperei.

Pensei: "Eu nunca vou conseguir tirar o peito desse menino."

Mas, acima do desespero, eu tinha uma coisa muito clara na minha cabeça: eu precisava ajudá-lo a se acalmar antes de desistir. Eu precisava, pelo menos, esperar que ele se acalmasse para então oferecer o peito.

Porque, se eu oferecesse naquele momento de desespero, eu poderia ensinar a ele, sem querer, que aquele era o caminho para conseguir o que queria. E, na próxima tentativa, ele poderia entender que bastava chegar àquele nível de choro para o peito voltar.

Então eu fiquei.

Fiquei ali.

Tive paciência.

Repetia sem parar que a mamãe estava ali para ele, que eu o ajudaria a passar por aquilo. Toda vez que ele pedia o peito, eu dizia: "Amor, o tetê foi dormir. Mas a mamãe pode te abraçar. Posso fazer carinho, posso dar beijinhos. Eu estou aqui para te ajudar."

Aos poucos, fui entendendo que ele simplesmente não conseguia se acalmar. Já tinha passado da hora de dormir. Ele estava cansado, frustrado e não tinha mais aquela única coisa que conhecia e que, até então, o ajudava a relaxar para pegar no sono.

Naquele momento, ele estava literalmente surtando.

Até que tive uma ideia. Peguei os álbuns de fotos de quando ele era bebê e comecei a mostrar as fotos e a conversar com ele sobre como ele tinha crescido. Mostrei como ele era pequenininho, como já estava grande e como não precisava mais do peito para conseguir dormir.

E, pela primeira vez naquela noite, alguma coisa mudou.

Ele começou a se acalmar.

Ficamos muito tempo olhando aqueles álbuns. Mostrei várias fotos da nossa família, contei histórias, falei o quanto nós o amávamos e repeti muitas vezes que ele podia contar comigo, que eu estava ali e que nós conseguiríamos passar por aquilo juntos.

Até que ele se acalmou completamente.

Então perguntei: "Você quer colo?" e ele aceitou.

Lembro de ter ficado sentada na cama, com ele no meu colo, cantando musiquinhas baixinho. E, depois de tudo aquilo, ele finalmente adormeceu.

Nossa. Eu jamais vou esquecer a sensação daquele momento.

Foram aproximadamente três horas até ele conseguir dormir.

Três horas.

Mas, naquele instante, eu me sentia invencível. Eu tinha conseguido fazer meu filho adormecer pela primeira vez sem o auxílio do peito.

Para algumas pessoas, pode parecer uma coisa pequena, mas para mim, foi como vencer uma guerra. Era a primeira vez, em toda a vida dele, que ele conseguia adormecer sem mamar.

E, como se aquela conquista já não fosse grande o suficiente, aconteceu algo que me deixou ainda mais surpresa: ele dormiu quatro horas seguidas.

Eu nem conseguia acreditar. Mas, enquanto olhava para ele dormindo, só conseguia pensar em uma coisa: "E quando ele acordar?"

Bom, depois de quatro horas seguidas de sono (pela primeira vez na vida), ele acordou.

E acordou bravo. Queria o peito e já começou a chorar da mesma maneira desesperada que havia chorado no início da noite.

Mas, em uma dessas vezes em que ele se afastava de mim para não deixar que eu o tocasse, ele acabou me batendo.

E ali aconteceu a primeira vez em que precisei ser firme com ele naquela noite. Olhei para ele e, em um tom firme, falei: "Não, Noah. Bater não pode. Você pode chorar. Pode gritar. Pode não querer que a mamãe encoste em você. Eu entendo que você está bravo e chateado porque não tem o tetê. Mas bater você não pode."

Na mesma hora, ele parou de chorar. Ele entendeu que havia cruzado um limite. Ele ainda não falava muito naquela época, então não conseguia me dizer "desculpa", mas encontrou outra maneira de demonstrar.

Veio para o meu colo e me abraçou. Sem choro.

Eu o abracei de volta e comecei a balançar meu corpo lentamente, para frente e para trás. E foi assim que ele adormeceu novamente.

Por mais três horas.

Quando acordou, já eram sete da manhã. E eu estava tão orgulhosa de nós dois.

Abracei meu filho, contei para ele o quanto estava orgulhosa por ele ter conseguido dormir sem o tetê pela primeira vez e fiz uma verdadeira festa para comemorar aquela conquista com ele.

Então falei: "Olha, o sol voltou! Agora que o sol acordou, o tetê também acordou!"

E, às sete da manhã, deixei que ele mamasse. Eu estava completamente realizada com a noite que tínhamos acabado de viver.

Mas o que aconteceu nos dias seguintes me surpreendeu ainda mais.

Noah não pediu mais o peito durante a noite. Isso mesmo que você acabou de ler. Ele nunca mais pediu o peito para adormecer.

Nos três dias seguintes, ele dormiu sendo ninado. E em apenas uma semana, ele já conseguia ir diretamente para a cama e adormecer sozinho, levando cerca de trinta minutos para pegar no sono. Eu sempre ficava ao lado dele, quietinha, esperando ele dormir.

Com o passar do tempo, esse intervalo foi diminuindo. Às vezes, quinze minutos. Às vezes, dez. E havia dias em que, em apenas cinco minutos, ele já estava dormindo.

E foi aí que aconteceu uma das maiores viradas de chave da minha maternidade.

Tudo ficou mais leve.

Eu descansava melhor. Ele descansava melhor. E, como consequência, eu também tive muito mais paciência com ele durante o dia.

O meu amor pela amamentação voltou. E, justamente por isso, decidi continuar amamentando o Noah por mais dois meses.

O desmame noturno não foi o fim da nossa amamentação, mas foi o começo de uma parte muito mais agradável da minha maternidade.

A minha intenção neste capítulo sobre o desmame noturno foi ser extremamente minuciosa e contar, da forma mais detalhada possível, tudo o que aconteceu naquela noite.

E talvez você esteja pensando: "Nossa, mas precisava contar cada detalhe?"

Para mim, precisava. Porque aquela noite foi difícil, mas foi apenas uma noite. Uma única noite que mudou completamente a nossa relação com o sono.

Eu poderia simplesmente te contar que tirei o peito durante a madrugada, que Noah chorou, que depois conseguiu dormir e que, a partir daquele dia, nunca mais pediu para mamar durante a noite.

Mas eu não quero te contar apenas o resultado.

Quero te contar o caminho.

Quero que você saiba o que eu fiz, o que pensei, o que deu errado, o que funcionou, os momentos em que eu quase desisti e, principalmente, como fui tentando encontrar outras formas de ajudá-lo a se acalmar quando o peito deixou de ser a única maneira que ele conhecia para voltar a dormir.

Porque talvez, quando chegar a sua vez, você se lembre de alguma coisa que leu aqui.

Talvez você esteja com um bebê chorando no meio da madrugada e se lembre de que eu peguei um álbum de fotos.

Talvez você perceba que ele precisa de colo.

Talvez precise apenas sentar ao lado dele e repetir que você está ali.

Talvez alguma pequena parte daquela noite faça sentido para a sua realidade e te ajude a atravessar a sua.

Recebo muitos relatos de mães que estão vivendo exatamente essa fase. Mães que me perguntam diariamente como consegui fazer o desmame noturno, como o Noah passou a dormir na própria caminha, como ele consegue adormecer todas as noites sem o peito e, principalmente, como chegamos até ali.

E é justamente por isso que eu quis contar essa história dessa maneira.

Não para dizer que existe uma fórmula ou que o desmame precisa acontecer exatamente como aconteceu com a gente.

Cada criança é uma criança. Cada família tem uma realidade. E aquilo que funcionou para nós pode precisar ser adaptado para você.

Mas, se neste capítulo você encontrar uma única ideia que torne a sua noite um pouco mais leve, então já estarei feliz de compartilhar essa parte com vocês.

E calma: ainda não terminamos.

Existem muitos outros detalhes que fizeram diferença para melhorar o sono do Noah e que eu ainda quero dividir com você ao longo deste livro.

O que contei aqui foi apenas o começo. Foi a noite em que eu consegui transformar o nosso sono noturno. A noite em que percebi que era possível continuar amamentando e, ao mesmo tempo, ensinar meu filho a dormir sem depender do peito.

A noite em que nosso sono começou a ficar mais leve, mais tranquilo e, de certa forma, mais humanizado.

Foi só uma noite.

Mas foi uma noite que mudou muita coisa para nós.

💡 Dicas de desmame noturno
1

Não comece se você não estiver pronta

E digo isso em todos os sentidos: emocional e fisicamente. Esteja decidida, tenha paciência e, se possível, comece em um momento em que você esteja minimamente descansada. A criança sente quando estamos inseguras, e sustentar a decisão fica muito mais difícil quando nem nós sabemos se estamos prontas para ela.

2

Retire o peito e dobre o carinho

Durante muito tempo, o peito foi sinônimo de conforto, segurança e aconchego. Por isso, ao retirá-lo, aumente as outras formas de demonstrar amor: colo, abraço, carinho, beijo e palavras. Mostre que o peito pode estar mudando, mas que você continua ali, disponível para ele.

3

Faça da maneira que for melhor para vocês

Só você conhece o seu filho de verdade. Você pode começar pelo desmame noturno e depois partir para o total, ou fazer tudo de uma vez. Não existe uma única maneira certa. Escolha o caminho que você acredita que será mais tranquilo e possível para vocês.

4

Depois de decidir, tente não voltar atrás no meio da tempestade

Quando o choro começa, a vontade de oferecer o peito é enorme. Por isso, não pense na madrugada inteira. Pense apenas no próximo passo: primeiro vou acalmá-lo; depois vou ajudá-lo a ficar sonolento; então vou ajudá-lo a dormir. Um passo de cada vez torna tudo muito mais leve.

5

Se quiser desistir, espere a criança se acalmar

Se você perceber que realmente não está pronta e quiser interromper o processo, tudo bem. Mas, se possível, não tome essa decisão no auge do choro. Primeiro ajude seu filho a se acalmar e, depois, decida o que fazer. Assim, você consegue pensar com mais clareza e não toma uma decisão apenas para interromper aquele momento de desespero.

6

Se possível, tenha uma rede de apoio

E digo isso principalmente por você. Enquanto você estiver acolhendo seu filho durante a madrugada, é importante ter alguém para acolher você. Seu companheiro, o pai da criança, sua mãe, uma amiga ou alguém de confiança. Ter alguém por perto pode fazer toda a diferença quando a noite ficar difícil.

7

Se precisar, peça ajuda para colocar a criança para dormir

No meu caso, eu escolhi conduzir o desmame sozinha porque sentia que aquele encerramento dizia respeito à minha relação com o Noah. Mas muitas mães preferem contar com o pai ou outra pessoa de confiança, principalmente na hora de adormecer. E tudo bem.

Se estiver muito difícil para você fazer sozinha, vale a tentativa. Às vezes, a criança aceita mais facilmente uma nova forma de adormecer quando o peito não está por perto.

Capítulo 8

Desmame total

Para finalizarmos a parte do desmame, acho importante contar para vocês o que aconteceu depois do desmame noturno.

Isso porque, apesar de eu ter imaginado que o fim da amamentação seria uma batalha, o nosso desmame total acabou acontecendo de uma maneira muito mais tranquila do que eu esperava.

Depois de tirar completamente as mamadas da noite, minha primeira preocupação foi não ter pressa para dar o próximo passo.

Deixei o Noah se acostumar com aquela nova forma de adormecer. Queria que ele entendesse que era possível dormir sem o peito antes de tirar também as mamadas durante o dia.

Depois de aproximadamente três semanas, quando percebi que ele já estava completamente adaptado à nova rotina de sono, comecei a organizar os horários das mamadas.

Estipulei três momentos do dia em que ele poderia mamar: pela manhã, à tarde e à noite.

Era assim que funcionava: ele mamava quando acordava, depois durante a tarde e novamente antes de dormir.

Ficamos dessa maneira por aproximadamente um mês.

E, quando decidi que era hora de iniciar o desmame total, também não tirei tudo de uma vez.

Eu sei que existem mães que preferem fazer o desmame de uma vez só, e eu super compreendo. Cada mãe conhece a sua realidade e cada criança reage de uma maneira.

Mas eu conhecia o meu filho. E acreditava que, para nós dois, seria menos doloroso fazer essa transição aos poucos.

Principalmente porque, se existe uma coisa que doeu em mim durante todo esse processo, foi pensar em dar fim à amamentação.

O desmame também aconteceu por um motivo muito específico: o Noah iria começar na escola.

Ele passaria a tarde inteira longe de mim e, por isso, eu queria prepará-lo para ficar sem o "tetê" durante esse período.

Comecei retirando justamente a mamada da tarde.

E foi tranquilo.

Como ele já tinha passado pela experiência de perder o peito durante a noite, parece que a primeira grande mudança já havia ensinado a ele que algumas coisas poderiam ser diferentes sem que isso significasse que o peito havia desaparecido para sempre.

Quando ele pedia para mamar à tarde, eu explicava novamente que naquele horário não teria mais tetê.

E, mesmo tendo sido tranquilo, essa foi, das três mamadas que ainda restavam, a mais difícil de retirar.

Ele passou a pedir pelo peito mais vezes. Mas não houve choro.

Eu sempre conversava com ele, explicava o que estava acontecendo e oferecia outras formas de conforto.

Perguntava: "Você quer carinho, beijinho, abraço ou água?"

E ele sempre escolhia alguma coisa. Às vezes queria abraço. Outras vezes, carinho. Às vezes queria água.

E, dessa forma, ele foi entendendo que, mesmo sem o peito, eu continuava ali.

Deixei essa nova rotina por aproximadamente uma semana. E então chegou a hora de retirar a mamada da manhã.

E, para a minha surpresa, foi ainda mais tranquilo.

Ele aceitou sem grandes dificuldades.

Agora restava apenas a mamada da noite. E essa, eu jurava que seria a mais difícil de todas.

Afinal, se durante tanto tempo o peito tinha sido associado ao sono, imaginei que seria justamente essa a mamada da qual ele teria mais dificuldade de abrir mão.

Mas aconteceu exatamente o contrário. Foi a mais fácil de todas.

No dia em que decidi fazer o desmame completo, resolvi amamentá-lo pela última vez durante a tarde.

Queria que ele tivesse a oportunidade de mamar sabendo que, depois daquele momento, o tetê não estaria mais disponível.

Quando chegou a noite, conversei com ele e expliquei que o tetê iria embora.

Naquela época, ele já entendia muito mais do que conseguia falar, então contei uma pequena história para ajudá-lo a compreender aquele momento.

Falei que existiam outros bebezinhos nascendo e que eles precisavam do tetê para crescer e ficar fortes. Como ele já estava grande, o tetê agora poderia ir para um bebê que precisava dele.

Ele me ouviu atentamente. E então respondeu: "Tá bom, mamãe."

Deitou na cama e foi dormir.

Eu fiquei olhando para ele com a minha cara no chão. Ele não derrubou uma lágrima sequer.

Eu, por outro lado, chorei muito. Muito. Foi doloroso.

Não porque eu achasse que estava tomando uma decisão errada, mas porque eu sabia que estava encerrando uma das fases mais importantes da nossa história.

Foram um ano e sete meses de amamentação.

Um ano e sete meses de dedicação, de colo, de noites, de descobertas, de dificuldades, de cansaço, de conexão e de momentos maravilhosos que eu jamais vou esquecer.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que aprendi com o desmame. Estar confiante de que chegou a hora não significa que vai ser fácil.

Você pode saber que está pronta. Pode saber que é a melhor decisão para você e para o seu filho.

E, ainda assim, pode doer.

Porque algumas fases da maternidade terminam mesmo quando ainda somos apaixonadas por elas.

E precisamos aprender a reconhecer quando chegou o momento de encerrar um ciclo para poder começar outro.

Eu não me arrependo nem por um segundo do momento em que encerrei a amamentação. Mas isso não significa que eu não sinta saudade.

A amamentação sempre será uma memória maravilhosa para mim, mesmo carregando todas as dificuldades que também fizeram parte dela.

Amamentar foi uma dádiva.

Foi uma experiência que me transformou, que criou entre nós momentos que jamais poderão ser repetidos da mesma maneira.

E sou profundamente grata por ter podido amamentar o meu filho até o momento em que eu senti que, para nós, era suficiente.

💡 Dicas de desmame
1

Se for estabelecer horários, escolha os mais importantes para a criança

Se você optar por organizar as mamadas em horários específicos, como eu fiz, escolha aqueles momentos em que seu filho mais costuma pedir o peito. Assim, você mantém as mamadas nos horários em que é mais difícil negar e torna a mudança mais previsível para ele.

2

Ofereça água

A água pode ser uma grande aliada durante o desmame. Às vezes, a criança pede o peito simplesmente porque está com sede. Então, sempre que ela pedir para mamar fora do horário combinado, ofereça água primeiro. É uma alternativa simples que pode ajudar bastante.

3

Dê um intervalo entre cada retirada

Não precisa retirar todas as mamadas de uma vez. Se optar por fazer o desmame gradual, dê um tempo para a criança se adaptar à retirada de uma mamada antes de tirar a próxima.

Assim, ela vai entendendo aos poucos que é possível passar por aquele momento sem o peito. Quando chega a hora da próxima retirada, a mudança já não parece tão grande.

4

Faça quando for melhor para você

Essa talvez seja a mais importante.

Às vezes, não queremos parar de amamentar, mas estamos sobrecarregadas e já não conseguimos viver a amamentação da maneira prazerosa que gostaríamos. Escute o seu corpo e os seus sentimentos. Não é porque alguém disse que "ainda não é hora" que isso necessariamente significa que não seja a hora para você. Se algo que antes era prazeroso passou a fazer mal, talvez seja o momento de aceitar que um ciclo está chegando ao fim e permitir que outro comece. E, às vezes, aquilo que parecia ser uma decisão enorme e dolorosa se torna muito mais tranquilo quando finalmente tomamos a decisão.

Capítulo 9

O sono

Depois do desmame noturno do Noah, as coisas começaram a fluir com muita facilidade.

Foram apenas três dias ninando ele para dormir. Fiz isso não porque ele ainda precisasse do colo para adormecer, mas porque queria dar ao corpinho dele um pequeno período de adaptação. Queria que ele percebesse, aos poucos, que conseguia chegar ao sono de outras maneiras.

Depois desses três dias, comecei a colocá-lo diretamente na cama. Eu deitava ao lado dele e cantava baixinho. Às vezes contava histórias. Às vezes fazia carinho ou dava alguns tapinhas no bumbum.

Fui testando e observando. Entendendo o que funcionava melhor para ele.

Até que, aos poucos, nós dois encontramos o nosso jeito.

Percebi que o mais difícil para o Noah não era necessariamente dormir. Era simplesmente deixar o sono chegar sem se agitar.

Então eu cantava algumas musiquinhas para ajudá-lo a desacelerar. Quando percebia que ele já estava sonolento, eu simplesmente ficava em silêncio ao lado dele e ele dormia.

Foi assim que, pouco a pouco, ele aprendeu a adormecer diretamente na cama.

Mas agora eu preciso contar uma fase que foi muito difícil para mim.

E dessa vez, não foi por causa do Noah.

Na verdade, acredito que ele já estivesse completamente preparado para seguir em frente e começar a dormir na própria cama, no próprio quarto.

O problema era comigo.

Era com os meus traumas de infância. Com a minha criança interior, que ainda carregava muito medo relacionado a dormir sozinha. E eu simplesmente não conseguia separar a minha infância da infância do meu filho.

Quando fizemos o desmame noturno, pouco tempo depois também mudamos de casa.

Por isso, mesmo depois do desmame, o Noah continuou dormindo na nossa cama por aproximadamente dois meses.

E isso aconteceu por dois motivos.

Primeiro, porque ele ainda estava se adaptando à nova forma de dormir. Eu acreditava, e ainda acredito, que, se naquele momento eu tivesse tentado fazer com que ele dormisse sozinho, na própria cama e sem a minha presença, tudo poderia ter sido muito mais difícil.

Ele já estava passando por uma mudança importante. Eu não queria transformar aquela adaptação em uma sequência de mudanças de uma vez só.

Segundo, porque estávamos no meio de uma mudança de casa, e o quarto dele demorou um pouco para ficar pronto.

Até que, finalmente, chegou o dia em que o quarto ficou pronto. E eu lembro de pensar: "Meu Deus, agora ele vai dormir no quartinho dele a noite toda pela primeira vez."

E ele dormiu.

Só que existia um pequeno detalhe: eu fazia o Noah dormir no quarto dele e depois ia viver a minha vida.

Tomava banho, assistia às minhas séries e fazia as coisas que queria fazer. Tudo normalmente.

Mas quando chegava a hora de eu ir para o meu quarto dormir...

Quem disse que eu conseguia?

Eu simplesmente não conseguia. Deitava na minha cama e não conseguia pegar no sono. Ficava acordada, olhando para a babá eletrônica. Esperando. Observando qualquer pequeno movimento. Até que ele se mexesse um pouquinho. E, quando isso acontecia, eu encontrava uma desculpa perfeita para levantar e ir até o quarto dele.

Era como se eu precisasse de um motivo para voltar a dormir ao lado dele.

Durante algum tempo, eu não entendia o que estava acontecendo comigo. Pensava: "Qual é o meu problema?"

Todas as mães fazem isso. Eu conheço mães que tinham colocado os filhos para dormir no próprio quarto com seis meses de idade. Então por que eu não conseguia fazer o mesmo?

Por que, mesmo sabendo que meu filho estava dormindo tranquilamente, eu não conseguia simplesmente ir para o meu quarto e dormir?

A resposta era simples.

Eu tinha um grande trauma de infância relacionado ao sono.

Como contei em capítulos anteriores, quando me mudei de cidade e finalmente tive o meu próprio quarto, aquilo, para mim, foi um verdadeiro pesadelo.

Imagine uma criança acostumada não apenas a dormir com a mãe, em uma cama de solteiro, mas também a ter outras duas pessoas dormindo no mesmo quarto.

Por oito anos.

De repente, essa criança precisa dormir em um quarto sozinha.

No escuro.

Para um adulto, talvez pareça uma mudança simples, mas para mim, quando criança, foi assustador.

Eu me lembro até hoje do medo que sentia de fechar os olhos. Lembro de acabar com a paciência da minha mãe todas as noites porque não conseguia adormecer. Do desespero de acordar no meio da madrugada e perceber que não havia ninguém ali comigo.

Lembro da minha mãe tentando encontrar maneiras de me ajudar a enfrentar aquele medo, inclusive comprando diferentes luminárias para o meu quarto, na tentativa de fazer com que eu perdesse, aos poucos, o medo do escuro.

Aquela experiência ficou em mim. E eu nem percebi o quanto.

Até ter um filho.

Porque, quando eu olhava para o Noah deitado sozinho no quarto dele, eu não enxergava apenas o meu filho.

Em algum lugar dentro de mim, eu também enxergava aquela menina que um dia teve medo de dormir sozinha.

E era muito difícil para mim deixá-lo ali.

Racionalmente, eu sabia que ele estava bem. Sabia que ele estava seguro e que estava dormindo. Mas emocionalmente, alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava estar perto.

Então, por meses e meses, eu dormi na cama com ele.

Coloquei até uma cama de casal no quarto dele. Na minha cabeça, a justificativa era: "Se algum dia alguém precisar dormir aqui, teremos espaço suficiente."

Mas, no fundo, eu sabia.

Eu estava criando espaço para mim. Estava tornando mais fácil permanecer ali durante as madrugadas. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de admitir na minha maternidade: o Noah já estava pronto para dormir sozinho.

Quem ainda não estava pronta era eu.

E demorou para eu entender que, naquele momento, eu não estava protegendo o meu filho de um medo. Eu estava tentando proteger a criança que eu fui.

Foi muito difícil perceber isso.

Porque, quando somos mães, queremos acreditar que todos os nossos medos são sobre os nossos filhos. Mas, às vezes, alguns deles são nossos. São feridas antigas que a maternidade acaba tocando sem pedir licença.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Fiquei meses nesse processo de idas e vindas, tentando fazer o meu cérebro entender que estava tudo bem. Que não tinha nada de errado em ele acordar durante a noite e não encontrar ninguém ali. Que ele estava seguro. Que, se precisasse de mim, eu iria chegar. E que, aos poucos, ele também aprenderia isso.

Até que, quando mudamos de casa novamente, uma mudança simples acabou resolvendo algo que eu vinha tentando resolver há meses.

Precisei trocar a cama do Noah por uma cama de solteiro. E, com isso, perdi o espaço que eu tinha para dormir ao lado dele.

Foi quase como se a situação tivesse ficado muito simples: Ou eu continuava dormindo com ele e dormia mal... Ou voltava para o meu quarto e, de uma vez por todas, ensinava ao meu cérebro que estava tudo bem.

E foi o que eu fiz.

Depois daquele dia, nunca mais dormi com ele.

Isso não significa que nunca mais tivemos aqueles momentos gostosos de cama compartilhada. Às vezes, no meio da madrugada, ele acorda e pede para ir para a nossa cama.

E, vez ou outra, em uma manhã chuvosa, quando eu também quero aproveitar mais alguns minutinhos de sono, ele acorda cedo e eu o levo para a nossa cama para ficarmos juntinhos e tentarmos dormir mais um pouco.

Eu ainda amo esses momentos.

Amo quando ele vem para a nossa cama, se aconchega, me abraça e ficamos ali, bem grudadinhos.

A diferença é que, agora, eu escolho esses momentos. Eles não acontecem porque eu tenho medo de deixá-lo sozinho.

E talvez essa tenha sido a maior vitória de todas.

Eu consegui perder o medo. Consegui entender que deixar o meu filho dormir no quarto dele não significava abandoná-lo. Não significava que ele estaria sozinho no mundo.

Significava apenas que ele estava dormindo. Seguro, amado e sabendo que, se precisasse de mim, eu estaria ali.

Hoje, o Noah dorme sozinho no quarto dele durante a noite inteira. E eu sinto um orgulho enorme quando penso que, com apenas dois anos e meio, o meu filho consegue fazer algo que, aos oito anos, eu ainda tinha muito medo de fazer.

É curioso como, às vezes, algumas decisões que tomamos na maternidade dizem muito mais sobre nós do que sobre os nossos filhos.

Nem sempre aquilo que achamos que nossos filhos precisam é, de fato, uma necessidade deles. Às vezes, é uma necessidade nossa, uma ferida antiga. Um medo que carregamos há anos.

E cabe a nós parar, olhar para aquela situação com honestidade e tentar entender: "Isso é realmente uma necessidade do meu filho ou é uma necessidade minha?"

Para a maioria das mães, talvez colocar o filho para dormir no próprio quarto seja uma etapa natural da infância.

Para mim, não foi. Foi difícil. Muito difícil.

Mas hoje fico feliz por ter conseguido reconhecer de onde vinha aquele medo e, principalmente, por ter entendido que ele não precisava ser herdado pelo meu filho.

Eu não consegui mudar o que aquela menina de oito anos viveu. Não consegui voltar no tempo e dizer para ela que estava tudo bem dormir sozinha, que ela estava segura e que a mãe dela continuava ali.

Mas consegui fazer algo que, para mim, foi ainda mais importante. Não deixar que aquele medo definisse a infância do meu filho.

O Noah pôde construir a própria relação com o sono. E, dessa vez, sem carregar o medo que um dia foi meu.

💡 Dicas de sono noturno
1

Não tenha pressa

Cada criança tem o seu tempo. Algumas estão prontas para dormir no próprio quarto muito cedo, enquanto outras precisam de mais tempo. Não tenha pressa para fazer essa mudança. Quando você sentir que seu filho está preparado, faça.

2

Torne o quarto aconchegante

Faça do quarto um lugar gostoso para estar. Um ursinho para abraçar, uma coberta do personagem preferido, uma luzinha no cantinho... Pequenos detalhes podem fazer a criança se sentir mais segura e gostar daquele espaço.

3

Se não der certo de primeira, vá aos poucos

Você pode começar fazendo a criança adormecer no quarto e, se ela acordar, levá-la para sua cama. Depois, pode voltar a ficar ao lado dela no quarto até que adormeça novamente. Aos poucos, ela vai se acostumando com o novo ambiente.

4

Crie um ritual para a hora de dormir

Tente repetir uma sequência parecida todas as noites: banho, pijama, luz mais baixa, história, música, carinho... Não precisa ser uma rotina rígida. O importante é criar sinais que mostrem para a criança que o momento de desacelerar e dormir está chegando.

5

Não mude tudo de uma vez

Se seu filho está passando por uma mudança importante no sono, tente não transformar tudo ao mesmo tempo. Se está deixando o peito, talvez não seja necessário mudar também de quarto, de cama e de rotina naquela mesma semana. Uma mudança de cada vez pode tornar o processo muito mais tranquilo.

6

Dê tempo para o novo hábito virar hábito

Uma noite ruim não significa que não funcionou. E uma noite maravilhosa também não significa que tudo estará perfeito para sempre. O sono passa por fases e o novo hábito precisa de tempo para se tornar natural para a criança. Tenha paciência com o processo e com vocês dois.

A Parte Que Não Estava Nos Livros
III

Educação

Limites, birras, os nossos próprios limites como mães e a pessoa que estamos ajudando a formar.

Para começar, nesta terceira parte há algo que eu gostaria de deixar muito claro: minha intenção não é ensinar você a educar seus filhos. Quem me dera ser um grande exemplo nesse quesito para ter tal poder!

Mas, assim como nos capítulos anteriores, quero compartilhar muitas coisas que aprendi nos livros que li ao longo da minha maternidade e, principalmente, aquelas experiências que me fizeram aprender tantas coisas no dia a dia, convivendo e lidando com meu filho. São experiências que vivi, situações pelas quais passei e ideias que surgiram enquanto eu tentava, muitas vezes, manter a calma em meio a uma birra.

Vou trazer ideias, conhecimentos e dicas que, espero, possam tornar essa parte da maternidade, que, por si só, já é bastante complicada, um pouco mais leve.

Não quero ditar regras ou dizer que existe uma única maneira certa de fazer as coisas. Quero apenas dividir com você aquilo que aprendi, o que funcionou para nós e, quem sabe, alguma dessas experiências possa também fazer sentido para a sua família.

Mas, antes de mergulharmos nesse assunto, eu gostaria de te convidar para uma reflexão.

Se você está grávida, pare por alguns minutos e pense: que tipo de mãe você gostaria de ser?

Como você gostaria de educar seu filho? Quais princípios gostaria de seguir? Que tipo de relação gostaria de construir com ele?

Se puder, não deixe essa reflexão apenas na sua cabeça. Pegue um papel, abra um bloco de notas ou escreva no celular. Coloque no papel tudo aquilo que você gostaria de levar para a sua maternidade.

"Não quero usar violência."

"Quero ser respeitosa."

"Quero ser compreensiva."

"Não quero descontar minhas frustrações no meu filho."

"Não quero gritar."

"Quero acolher quando ele precisar."

"Quero estabelecer limites."

"Quero ensinar regras e princípios."

"Quero respeitar meu filho sem deixar de exercer minha autoridade."

Enfim, coloque ali tudo aquilo que você gostaria que fizesse parte da educação dos seus filhos. Não pense no que é possível ou impossível neste momento. Pense na mãe que você gostaria de ser.

Agora, se você já é mãe, quero que faça o exercício de uma maneira um pouco diferente.

Escreva como é, de verdade, a sua forma de educar.

Seja sincera.

Coloque as coisas das quais você se orgulha, mas também aquelas que fazem você sentir vontade de chorar quando lembra. Escreva os comportamentos que gostaria de manter, os que gostaria de mudar, as situações em que você sente que consegue agir como gostaria e aquelas em que percebe que perde o controle.

Não faça uma lista para se julgar.

Faça uma lista para se enxergar.

Quando finalizar essa lista, pare por alguns minutos e leia tudo em voz alta.

Se você ainda está gestando e tem um companheiro, o pai do bebê ou alguém que participará diretamente da criação dessa criança, esse também é um ótimo momento para conversar.

Divida com essa pessoa aquilo que você escreveu. Falem sobre os princípios que consideram importantes, sobre os limites que querem estabelecer e, principalmente, sobre aquilo que não gostariam de fazer na frente ou com a criança.

"Isso aqui, para mim, é inegociável."

"Isso aqui podemos conversar."

"Isso aqui eu gostaria que fosse diferente."

"Isso aqui precisamos decidir juntos."

Estabeleçam combinados que possam evitar conflitos futuros. Por exemplo: não confrontar a decisão do outro na frente da criança. Se um dos dois disser não, o outro não deve simplesmente transformar aquilo em um sim na frente dela. Se houver discordância, conversem em particular e cheguem a um consenso.

É muito mais fácil conhecer a forma de pensar do seu companheiro antes de uma situação difícil acontecer do que descobrir, no meio de uma birra, que vocês enxergam a educação dos filhos de maneiras completamente diferentes.

Agora, se você já é mãe, quero que volte para aquela primeira lista e faça uma pergunta a si mesma:

Era isso que você imaginava quando pensava na mãe que gostaria de ser?

É claro que nem tudo estará perfeito. Você vai perder a paciência algumas vezes. Vai gritar quando gostaria de ter falado com calma. Vai tomar decisões das quais talvez se arrependa depois.

E tudo bem. Somos humanas.

Um erro, um dia ruim ou uma perda de paciência não define a mãe que você é.

Mas quero que você olhe para a sua rotina como um todo.

No dia a dia, você está seguindo os princípios que gostaria de seguir?

Você se sente orgulhosa da forma como educa seu filho?

Consegue olhar para aquela lista e reconhecer a mãe que você queria ser?

Ou percebe que, em alguns pontos, gostaria que fosse diferente?

Se a resposta for "poderia ser diferente", não use essa descoberta para se culpar.

Use-a para se movimentar.

Porque existe uma diferença enorme entre reconhecer um erro e ficar presa a ele. Não adianta olhar para trás, perceber tudo aquilo que você gostaria de ter feito diferente e passar o resto do tempo chorando pelo leite derramado. O passado não pode ser refeito. Mas ele pode ensinar.

A pergunta mais importante não é: "Por que eu fiz isso?"

Talvez seja:

"O que eu posso fazer diferente a partir de agora?"

Você não precisa mudar tudo de uma vez. Não precisa se transformar em uma mãe perfeita de um dia para o outro. Precisa apenas identificar aquilo que gostaria de melhorar e estar disposta a tentar.

E é justamente por isso que, depois dessa primeira reflexão, quero que você faça uma segunda lista.

Agora escreva novamente:

Como seria a educação ideal para mim?

Quais linhas você gostaria de seguir?

Quais comportamentos gostaria de mudar?

Quais princípios quer manter?

O que gostaria de fazer mais?

O que gostaria de fazer menos?

Que tipo de mãe você gostaria de ser daqui para frente?

Agora sim, temos duas listas.

De um lado, a mãe que você é hoje.

Do outro, a mãe que você gostaria de ser.

E não quero que você olhe para essas duas listas para encontrar motivos para se culpar. Quero que olhe para elas para encontrar caminhos.

Porque talvez a distância entre as duas não seja um motivo para desistir. Talvez seja exatamente o lugar onde a sua mudança pode começar.

Agora sim, podemos começar a nossa conversa.

Quero compartilhar com você como estabeleci os limites aqui em casa, como lido com as birras e como converso sobre sentimentos, regras e tantas outras coisas com o meu filho no dia a dia.

Vou dividir com você tudo aquilo que aprendi ao longo desses anos: o que encontrei nos livros que li, o que aprendi na prática, o que funcionou, o que não funcionou e, principalmente, aquilo que a maternidade me ensinou vivendo cada uma dessas situações.

E quero fazer isso da maneira mais verdadeira possível. Sem esconder meus erros atrás dos meus acertos e sem tentar parecer uma mãe que nunca perdeu a paciência ou tomou uma decisão da qual se arrependeu depois. Quero que você conheça os dois lados, porque acredito que é justamente isso que torna essa conversa mais real.

Então, fique à vontade. Vamos conversar como duas mães trocando experiências.

Quero que você encontre aqui ideias para aqueles pontos em que sente que precisa de ajuda, mas também descubra possibilidades para situações que talvez você nunca tenha parado para pensar.

Talvez alguma coisa que você leia aqui faça você mudar a maneira como enxerga uma situação. Talvez outra simplesmente confirme algo que você já fazia. E talvez algumas ideias não façam sentido para a sua família, e tudo bem também.

A intenção nunca foi te entregar uma fórmula pronta.

Quero apenas abrir a minha caixa de ferramentas e mostrar tudo aquilo que fui aprendendo pelo caminho.

Agora, vamos nos aprofundar.

Vamos falar sobre limites, birras, sentimentos, autoridade, respeito, erros, acertos e, acima de tudo, sobre como podemos tornar essa missão tão desafiadora de educar nossos filhos um pouco mais leve.

Capítulo 10

Impondo limites

Há quem pense que educação e limites só começam depois do primeiro ano de vida da criança. Ou depois da primeira birra. Ou, quem sabe, somente quando determinado comportamento passa do limite para algum adulto.

Bom, eu te convido a continuar comigo. Quero te mostrar que existem outros caminhos. Caminhos para uma educação respeitosa e acolhedora, sim, mas que não deixam de lado os limites, os princípios e aquilo que acreditamos ser importante ensinar aos nossos filhos.

Nesse momento, talvez você esteja pensando: "Tá, mas isso é educação positiva?"

Olha... eu já fui chamada muitas vezes de "mãe Nutella" nas redes sociais por causa da forma como escolhi educar meu filho. Já ouvi que é "mimimi", que tenho "frescura demais" e que, na vida real, as coisas não funcionam assim. Ao mesmo tempo, também recebo muitos elogios pela educação do meu filho.

E isso sempre me faz pensar em uma coisa: podem até questionar os meus métodos, mas, por favor, não questionem os meus resultados.

Brincadeiras à parte, eu realmente estudei muito sobre educação positiva. Li, pesquisei, ouvi profissionais e tentei entender como colocar tudo aquilo em prática dentro da nossa realidade. Consegui aplicar tudo sempre? Não. Nem de longe.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que aprendi: teoria nenhuma deve ser seguida como uma receita pronta.

Eu filtrei tudo aquilo que fazia sentido para mim, para o meu filho e para a nossa família. Algumas coisas funcionaram maravilhosamente bem. Outras simplesmente não combinavam com a nossa realidade. E tudo bem.

Ao mesmo tempo, também trouxe para a educação do meu filho coisas que fizeram parte da minha própria formação. Valores que recebi, ensinamentos que carrego comigo e princípios que, ao longo da vida, fui construindo sozinha e que hoje acredito que vale a pena transmitir a ele.

Por isso, quando me perguntam qual é a minha forma de educar, talvez eu não consiga colocar tudo dentro de uma única definição.

Acredito que a minha forma de educar tenha um pouco de tudo.

Um pouco de teoria, daquilo que estudei e aprendi.

Um pouco de prática, daquilo que a maternidade me ensinou no dia a dia.

E um pouco de herança, dos valores, princípios e ensinamentos que recebi e escolhi carregar comigo.

Porque talvez educar seja justamente isso: não seguir uma fórmula pronta, mas construir, aos poucos, a nossa própria maneira de ensinar nossos filhos a viver no mundo, sem deixar de respeitar quem eles são.

Então, não. Acredito que a resposta para aquela pergunta seja: não, talvez o que eu faça não seja exatamente uma "educação positiva". Mas, com certeza, é uma educação respeitosa. Respeitosa comigo, com os meus limites e, principalmente, com a criança que está aprendendo a viver e a lidar com o mundo.

E é justamente isso que quero te mostrar nesta parte do livro.

Quero te convidar a pensar um pouco com a cabecinha daquele mini ser que está diante de você. Tentar enxergar determinadas situações pela perspectiva da criança. Quero te ajudar a encontrar saídas para momentos complicados e, quem sabe, até aprender a antecipar algumas situações para diminuir bastante a quantidade de vezes em que elas acontecem.

Quero te mostrar como é possível validar os sentimentos dos pequenos sem permitir que eles ultrapassem a sua autoridade. Entender o que eles estão sentindo sem abrir mão dos limites. Respeitar suas emoções sem deixar que regras e princípios sejam ignorados. Acolher e oferecer apoio mesmo quando a situação aconteceu justamente porque alguma regra sua foi quebrada.

Porque acolher não significa concordar com tudo.

Entender não significa permitir tudo.

Respeitar não significa deixar a criança fazer o que quiser.

Talvez algumas pessoas chamem esse jeito de educar de uma maternidade "metade Nutella, metade raiz". Mas eu discordo.

Impor limites, ensinar respeito e, ao mesmo tempo, respeitar a criança também fazem parte de uma educação positiva e respeitosa. O problema é que, muitas vezes, esses conceitos acabam sendo mal interpretados ou mal aplicados. E, sem perceber, aquilo que deveria ser uma educação positiva acaba se transformando em uma educação permissiva.

E é aí que as coisas começam a desandar.

Porque uma coisa é acolher o choro. Outra é permitir que a criança bata para evitar que ela chore.

Uma coisa é entender a frustração. Outra é aceitar que ela desrespeite alguém por estar frustrada.

Uma coisa é respeitar os sentimentos. Outra é deixar de ensinar que existem comportamentos que não são aceitáveis para evitar que a criança fique triste.

A criança pode sentir tudo. Mas não pode fazer tudo.

E talvez essa seja uma das maiores diferenças que quero te mostrar aqui: limites e respeito não são opostos. Eles caminham lado a lado.

Você pode acolher, compreender e respeitar seu filho sem abrir mão da sua autoridade, das regras e dos princípios que considera importantes.

Na verdade, acredito que é justamente quando essas coisas caminham juntas que conseguimos construir uma educação realmente respeitosa.

Quando os limites começam?

Aqui em casa, por exemplo, comecei a colocar limites desde muito cedo. Cedo mesmo.

Quando o Noah tinha uns sete meses, lembro de uma situação com um livro meu que eu costumava deixar debaixo do meu travesseiro. Ele começou a querer brincar com aquele livro e, naquele momento, o limite era simples:

"Não. Não pode brincar com isso."

Só que ele chorou.

Foi um chorinho de nada, mas ele era tão pequenininho... E aquilo era tão fofo! Acabei cedendo.

Resultado?

Ele rasgou o meu livro.

Claro que ele era apenas um bebê, e eu já sabia que aquilo provavelmente aconteceria. Bebês exploram o mundo com as mãos, com a boca, puxando, amassando, rasgando... O erro, naquela situação, foi completamente meu. Eu coloquei um limite e, diante de um chorinho, retirei esse limite.

Mas você acha que esse foi o meu único erro naquela situação?

Dias depois, ele tentou colocar o dedo na tomada. Dessa vez, eu impus um limite que jamais poderia retirar por motivos de segurança:

"Não. Não pode colocar o dedo aqui."

E ele chorou.

Só que, alguns dias antes, ele tinha aprendido uma coisa muito interessante: quando chorava, conseguia aquilo que queria.

Então ele abriu o berreiro.

E eu tenho certeza de que foi muito mais difícil tirá-lo dali naquele dia do que teria sido se eu tivesse mantido o limite firme alguns dias antes, na história do livro.

Não porque ele estivesse me manipulando. Não porque tivesse pensado: "Vou chorar para ver se ela deixa."

Não é assim que funciona.

Eles aprendem muito rápido. E nós precisamos estar atentos ao que estamos ensinando, inclusive quando não percebemos que estamos ensinando alguma coisa.

Pode parecer uma situação pequena, uma coisa boba. Mas não é.

A criança não conhece você. Ela não conhece os seus limites, não conhece a sua paciência e não sabe, de início, até onde pode ir.

Então, o que ela faz?

Ela experimenta. Ela tenta de novo. Ela observa o que acontece. E ela aprende com a sua reação.

É isso que muitas vezes chamamos de "testar os limites". Mas é importante entender que esse teste não acontece de forma consciente, como se a criança estivesse fazendo um plano para descobrir até onde consegue manipular o adulto.

O cérebro dela está, pouco a pouco, tentando entender o mundo.

E você faz parte do mundo dela.

Ela está descobrindo o que pode, o que não pode, o que é seguro, o que é perigoso, o que acontece quando chora, quando insiste, quando espera, quando obedece e quando ultrapassa determinado limite.

Por isso, cada reação nossa também é uma forma de ensinar.

E foi assim que eu comecei a entender que colocar limites não significa apenas dizer "não". Significa também sustentar esse "não".

Porque, para uma criança pequena, o limite não é apenas uma proibição.

É uma informação sobre o mundo.

O poder do "não"

Então, quando a criança tentar fazer algo que você não está disposta a permitir, diga "não".

Existem algumas linhas de educação que defendem que o "não" não deve ser usado de forma rotineira. Para elas, a palavra deveria ser reservada para situações mais sérias, principalmente aquelas que envolvem perigo ou que exigem uma resposta imediata.

A ideia é que, se o "não" for usado o tempo todo, ele pode perder o significado e a criança pode simplesmente parar de dar importância à palavra.

Bom, eu nunca segui essa linha.

Talvez porque eu mesma tenha crescido ouvindo muitos "nãos" e sempre soube exatamente o que eles significavam. E, quando comecei a observar meu filho, depois de alguns meses, também ficou muito claro para mim que ele entendia e levava a sério quando eu dizia "não".

Mas aqui em casa o "não" também tem regras. Na verdade, uma única regra, e nós procuramos nunca quebrá-la:

Se eu disse não, não volto atrás.

Não é não. E ponto final.

Se eu falei "não", é porque existe um motivo. Pode ser porque é perigoso, porque ultrapassa um limite que já foi estabelecido, porque quebra uma regra ou porque vai contra algum princípio da nossa família.

Mas existe uma coisa importante: eu não preciso responder imediatamente a tudo.

Às vezes, a criança pede alguma coisa e eu simplesmente ainda não sei se quero permitir ou não. E, nesses casos, prefiro não transformar uma dúvida em um "não" definitivo.

Posso dizer:

"Vou pensar nisso."

Ou:

"Preciso pensar e já te respondo se pode ou não."

Assim, eu ganho tempo para pensar com calma, avaliar a situação e tomar uma decisão que realmente esteja disposta a sustentar.

Porque, se o meu "não" precisa ser mantido, eu também preciso ter cuidado com os "nãos" que escolho dar.

Não quero dizer "não" simplesmente porque estou cansada, porque estou distraída ou porque foi a primeira resposta que saiu da minha boca. Quero que meu filho aprenda que, quando digo essa palavra, existe uma razão por trás dela.

E, quando finalmente dou a resposta, ela é definitiva.

Dessa forma, o meu "não" não vira um "sim" simplesmente porque eu respondi no impulso ou porque, depois de alguns minutos, percebi que não tinha certeza daquilo que havia acabado de dizer.

Não tenha pressa para dizer "não". Mas, depois de dizê-lo, tenha clareza para sustentá-lo.

O limite também muda conforme a idade

Quando eles já estão maiores, um bom diálogo e uma conversa respeitosa costumam ser as formas mais eficientes de ajudá-los a entender nossas decisões e, ao mesmo tempo, mostrar que estamos compreendendo o que sentem.

Mas, com os bebês, isso se torna um pouco mais difícil.

Eles ainda não têm maturidade para compreender longas explicações. Muitas vezes, sequer conseguem entender por que determinada coisa é perigosa.

Então, quando o Noah ainda era bem pequenininho, eu costumava estabelecer alguns limites físicos.

Uma mão entre o bebê e aquilo que ele queria alcançar, por exemplo, costumava funcionar muito bem.

Você impede fisicamente o acesso, mas não precisa transformar aquilo em uma bronca. Pode simplesmente colocar a mão entre ele e o objeto, olhar para ele e dizer, com poucas palavras:

"Ah, você quer colocar a mão na tomada? Eu sei que você quer, mas não pode colocar a mão aí."

Limite físico, palavras simples e tranquilidade.

Conforme eles crescem, as explicações também podem crescer junto.

"Não pode colocar a mão na tomada porque vai fazer dodói."

É natural que, conforme a criança desenvolve a compreensão, ela queira saber o motivo das coisas. E não há problema nenhum em explicar.

Na verdade, acredito que explicar faz parte do processo de ensinar.

Só existe uma diferença importante: a explicação não precisa transformar o "não" em uma negociação.

Você pode explicar por que não pode e, ainda assim, manter o limite.

"Não pode mexer aí porque é perigoso."

"Mas por quê?"

"Porque pode machucar você."

Pronto.

Você explicou. Respeitou a curiosidade da criança. Deu sentido àquela proibição. Mas o limite continua no mesmo lugar.

Porque, no fim das contas, o que muda conforme eles crescem é a forma como comunicamos o limite — e não a necessidade de existirem limites.

Quando são bebês, muitas vezes precisamos impedir fisicamente e falar pouco.

Conforme crescem, conseguimos explicar mais.

Depois, conseguimos conversar, negociar algumas coisas e ouvir seus argumentos.

Mas, em todas essas fases, eles continuam precisando aprender que existem coisas que podem fazer, coisas que não podem e adultos que estão ali para ajudá-los a entender essa diferença.

Isso é respeito.

E isso não vale apenas para bebês e crianças pequenas. Vale para qualquer idade. Até para os adolescentes.

Capítulo 11

As birras

Se estabelecer limites é uma parte importante da educação, aprender a lidar com a reação da criança diante desses limites também é. Afinal, nem sempre ela vai aceitar um "não" com tranquilidade, e tudo bem.

A frustração faz parte do aprendizado. Mas isso não significa que precisamos deixar a criança sozinha para lidar com ela.

É aqui que entram as famosas birras.

E, se você está pensando que por aqui elas não acontecem, sinto muito em decepcionar você.

Quem me dera!

Longe disso. As birras acontecem, é claro.

Mas, antes de qualquer coisa, quero que você entenda uma coisa: uma birra não significa que você fez algo errado.

Às vezes, significa apenas que seu filho queria muito alguma coisa e descobriu que não poderia tê-la.

E isso dói.

Para você, talvez pareça uma coisa pequena. Pode até parecer uma bobagem. Mas, para uma criança, aquela pode ser uma grande frustração.

Pense que, nessa fase, ela ainda teve pouquíssimas experiências de frustração. Ela ainda está aprendendo que nem tudo acontece quando quer, que algumas coisas não podem ser feitas e que, muitas vezes, precisamos aceitar um "não" mesmo quando gostaríamos muito de ouvir um "sim".

Por isso, aquilo que para nós parece pequeno pode se transformar em algo gigantesco dentro da cabecinha deles.

E é justamente aí que entra o respeito pela frustração da criança.

Nem sempre o nosso papel é fazer com que ela pare de chorar. Às vezes, nosso papel é simplesmente ajudá-la a atravessar aquele momento.

Ela pode ficar triste. Pode chorar. Pode reclamar. Pode não gostar da nossa decisão. E tudo bem.

O que ela não precisa aprender é que só poderá receber carinho depois que parar de sentir.

Se houver choro, acolha. Pode abraçar, acalmar, beijar. Pode dizer que entende que ela ficou triste.

Mas isso significa que ela pode fazer aquilo que você acabou de dizer que não podia? Não.

O acolhimento não muda o limite.

Você pode abraçar seu filho enquanto ele chora e, ao mesmo tempo, manter firme aquilo que decidiu.

"Eu sei que você queria muito. Eu sei que você está triste. Mamãe está aqui. Mas isso continua não podendo."

Você não está dizendo:

"Eu deixei porque você chorou."

Você está dizendo:

"Eu sei que você queria muito. Entendo que você ficou triste. Mas, mesmo assim, não pode. E eu estou aqui com você."

Isso é respeito.

Sua autoridade não diminui porque você acolhe o seu filho.

Muito pelo contrário.

Você continua sendo o adulto que estabelece o limite. A diferença é que, ao mesmo tempo, está ensinando que os sentimentos daquela criança também podem existir.

E isso vale para qualquer idade.

Conforme nossos filhos crescem, talvez eles deixem de fazer birras no chão da sala, mas a frustração continua existindo. Os motivos mudam, as reações mudam, as conversas mudam... mas a necessidade de limites, respeito e compreensão continua sendo a mesma. Com os pequenos, a conversa ainda precisa ser bem mais simples.

Às vezes, tudo se resume a um:

"Ah, mãe... mas eu quero!"

E, quando isso acontece, eu costumo explicar o motivo pelo qual disse não.

Porque entender o motivo pode ajudar a criança a lidar melhor com a frustração.

É claro que a explicação precisa ser adequada à idade. Não adianta falar com uma criança pequena como se estivéssemos conversando com um adulto. Precisamos usar palavras simples, frases curtas e uma explicação que ela consiga compreender.

Porque, depois que a criança entende o motivo, aquilo começa a fazer mais sentido dentro da cabecinha dela.

"Eu sei que você quer. Mas não pode porque isso vai machucar você."

"Você queria continuar brincando, eu sei. Mas agora precisamos ir embora."

"Eu sei que você queria esse brinquedo. Hoje não vamos comprar."

Talvez ela continue chorando. E tudo bem.

Explicar não é uma fórmula mágica para fazer a birra desaparecer. Explicar é uma forma de respeitar a criança enquanto você mantém a sua decisão. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Você não precisa fazer seu filho concordar com você para que ele seja respeitado. Ele pode continuar achando injusto. Pode continuar querendo. Pode continuar triste. E você pode continuar dizendo não.

Aliás, dependendo da idade, da fase e das circunstâncias que estão vivendo, a insistência pode aparecer bastante.

A criança tenta uma vez.

Você diz não.

Ela tenta de novo.

Você diz não outra vez.

Ela tenta uma terceira.

Algumas crianças param.

Outras choram.

Algumas param por um tempo e tentam novamente depois.

Isso é totalmente normal.

Cada criança é diferente. Algumas aceitam uma frustração com mais facilidade; outras precisam de mais tempo, mais repetição e mais ajuda para aprender a lidar com ela.

"Mas, Paloma, isso é um problema?"

Nenhum.

Talvez você simplesmente tenha uma criança persistente.

E isso está longe de ser algo ruim.

Afinal, quando crescemos, a persistência é uma das características que mais admiramos em um adulto. É aquela pessoa que não desiste fácil, que tenta novamente, que insiste diante das dificuldades e continua até conseguir.

Então, por que, quando essa mesma característica aparece em uma criança, tantas vezes enxergamos apenas como um problema?

Porque dá trabalho.

E dá mesmo.

A diferença é que, com uma criança mais persistente, você provavelmente vai precisar ser ainda mais persistente do que ela.

Talvez o choro demore mais para passar. Talvez ela tente novamente várias vezes. Talvez você precise repetir a mesma frase algumas vezes. Ou até seja melhor afastá-la daquela situação e oferecer uma alternativa segura.

"Você não pode brincar com isso. Vamos brincar com isso aqui?"

Não é sobre enganar a criança ou fazer com que ela esqueça o que queria. É simplesmente oferecer uma alternativa para que ela consiga direcionar a atenção para outra coisa.

Mas existe uma coisa importante: você não precisa transformar cada birra em uma grande conversa.

Às vezes, a criança está tão tomada pela emoção que não vai conseguir ouvir uma explicação longa e muitas vezes ela nem quer.

Nesses momentos, quanto mais simples, melhor.

"Eu sei que você está triste."

"Eu estou aqui."

"Você queria muito isso."

"Mas não pode."

E pronto.

Talvez depois, quando ela estiver mais calma, você consiga conversar melhor. Porque existe um momento para ensinar e existe um momento para acolher. E saber diferenciar esses dois momentos também faz parte da educação.

Por aqui, estamos vivendo uma fase em que o Noah está testando se a palavra "desculpa" pode resolver tudo.

Ele faz alguma coisa que não podia, pede desculpas, eu digo que o desculpo, abraço, beijo... E então vem a pergunta:

"Então agora eu posso?"

E eu preciso explicar: "Não, meu amor. Eu te desculpei. Mas você continua não podendo fazer isso."

E, algumas vezes, ele volta a chorar.

E está tudo bem. Ele está aprendendo.

Está aprendendo que pedir desculpas é importante, mas que pedir desculpas não apaga automaticamente uma regra ou transforma um "não" em "sim".

Está aprendendo que podemos errar, ser perdoados, receber carinho e, ainda assim, precisar lidar com os limites daquela situação.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas desse processo.

Ele pode errar e continuar sendo amado.

Pode ficar frustrado e continuar sendo acolhido.

Pode ouvir um não e continuar tendo espaço para demonstrar que não gostou daquele não.

Mas isso não significa que o limite desaparece.

E talvez essa seja uma das coisas que mais precisamos aprender como mães: acolher uma emoção não significa resolver essa emoção.

Às vezes, queremos tanto ver nosso filho bem que tentamos acabar com o choro imediatamente.

Damos o que ele queria, mudamos de ideia, fazemos uma exceção, tentamos distrair ou até negociar. Tudo para que aquela emoção desapareça.

Mas nem toda frustração precisa desaparecer. Algumas precisam apenas ser vividas.

E isso não significa abandonar a criança dentro daquele sentimento. Significa ficar ao lado dela enquanto ela aprende a atravessá-lo.

"Eu sei que você está triste."

"Eu sei que você queria muito."

"Pode chorar."

"Eu estou aqui."

E, depois que passar, seguimos.

Porque uma criança também precisa aprender que a frustração passa.

Que o choro passa.

Que sentir raiva passa.

Que podemos não conseguir aquilo que queríamos e, ainda assim, ficar bem depois.

É uma habilidade que vamos levar para o resto da vida. Afinal, nós também somos frustrados todos os dias.

O adulto que não consegue aquela promoção. A mãe que precisa cancelar um passeio porque o filho ficou doente. O adolescente que não pode ir a uma festa. A pessoa que recebe um não em uma entrevista de emprego.

A vida é cheia deles.

Por isso, talvez ensinar nossos filhos a lidar com a frustração seja muito mais importante do que tentar evitar que eles se frustrem.

E talvez seja justamente por isso que eu não quero que você veja a birra apenas como um comportamento que precisa ser interrompido. Quero que você comece a enxergá-la também como uma oportunidade de aprendizado.

E é justamente aí que chegamos à parte mais difícil dessa história:

Nós.

Porque, quando uma criança insiste pela quinta vez, chora novamente ou parece não ter entendido absolutamente nada do que acabamos de explicar, é muito fácil pensar:

"Meu Deus, ele está fazendo isso só para me irritar."

Mas não está. Pelo menos não da maneira como um adulto faria.

Ele está aprendendo.

O cérebro dele ainda está amadurecendo. Ele ainda está descobrindo o que fazer com a frustração, com a raiva, com a vontade de conseguir alguma coisa e com a decepção de ouvir um "não".

E, enquanto ele aprende a controlar as próprias emoções, nós precisamos tentar controlar as nossas.

Nem sempre vamos conseguir. Às vezes eu também falho nisso.

Vou perder a paciência algumas vezes. Vou falar mais alto quando gostaria de ter falado mais baixo. Vou terminar um dia pensando que poderia ter conduzido determinada situação de outra maneira.

Isso não significa que todo o trabalho que estamos fazendo foi perdido.

Significa apenas que somos humanas.

Mas precisamos estar atentas para não transformar a nossa própria falta de paciência em uma resposta automática para a frustração dos nossos filhos.

Porque, quando eu grito diante do choro, ensino que o grito é uma forma de lidar com aquilo que sentimos.

Quando eu ameaço porque estou cansada, ensino que o medo pode ser usado para conseguir obediência.

Quando eu acolho, respiro e tento permanecer firme, ensino que sentimentos podem ser grandes sem precisar machucar ninguém.

E eu sei que isso é muito mais fácil de escrever do que de fazer.

Acredite em mim. Eu sei.

Tem dias em que preciso me lembrar de tudo isso que estou escrevendo aqui.

E talvez essa seja justamente a parte mais importante: não precisamos ser perfeitas para ensinar nossos filhos a lidar melhor com as próprias emoções.

Precisamos apenas tentar não exigir deles um controle emocional que nem nós conseguimos ter o tempo todo.

Então, quando seu filho estiver no meio de uma birra, talvez a pergunta não precise ser:

"Como faço para ele parar de chorar?"

Talvez possa ser:

"Como posso ajudá-lo a passar por isso?"

Porque aquela criança não está tentando vencer uma batalha contra você. Ela está tentando aprender a lidar com uma emoção que ainda não sabe administrar.

E, enquanto ela aprende, somos nós que precisamos emprestar um pouco da nossa calma para ajudá-la a encontrar a própria.

Afinal, não estamos tentando criar crianças que nunca se frustram, nunca choram e nunca fazem birra. Mas sim, crianças que, aos poucos, aprendem que podem sentir tudo isso e, ainda assim, continuar seguras, amadas e capazes de seguir em frente.

Mas, afinal, o que fazer durante a birra?

Agora vamos para a parte prática da história.

Aqui quero compartilhar com você algumas coisas que fazemos por aqui e que, ao longo do tempo, ajudaram bastante a diminuir as birras e, principalmente, a tornar esses momentos mais fáceis de lidar.

Vou trazer vários exemplos, situações que já vivi, pequenas estratégias e coisas que fui descobrindo no dia a dia. Quem sabe alguma delas também faça sentido para você e possa ajudar a deixar as birras aí na sua casa um pouquinho mais leves.

1. Birras em casa

As birras que acontecem dentro da nossa casa costumam ser muito mais tranquilas e fáceis de lidar. E existe uma coisa que considero fundamental para isso:

Não leve para o pessoal.

Se você não deixar a birra te afetar, se não enxergá-la como um insulto ou como um desafio pessoal (porque não é), vai conseguir atravessar esses momentos com muito mais tranquilidade.

A criança não está fazendo birra para te desrespeitar. Ela está frustrada, contrariada ou simplesmente tendo dificuldade para lidar com alguma emoção. E quanto menos você entrar nessa disputa emocional, mais fácil fica conduzir a situação.

Uma dica que considero maravilhosa para as situações do dia a dia é dar previsibilidade para a criança.

Vamos imaginar que seu filho esteja assistindo a um desenho na televisão, mas chegou a hora do banho.

Se você chegar e simplesmente disser:

"Filho, acabou. Agora precisamos tomar banho."

Existe uma probabilidade muito maior de ele reclamar, chorar ou fazer uma birra.

Agora, experimente avisá-lo antes:

"Filho, precisamos tomar banho. Vou deixar você assistir mais cinco minutos e depois acabou."

Pronto. Agora ele sabe o que vai acontecer.

Ele tem mais cinco minutos para terminar o que está fazendo e, depois disso, precisa ir para o banho.

A previsibilidade pode ser uma grande aliada na hora de diminuir as birras. E isso serve para praticamente tudo.

"Filho, só mais um doce e depois acabou."

"Você pode brincar mais cinco minutos e depois precisamos nos arrumar para a escola."

"Vamos brincar mais um pouquinho e depois vamos guardar os brinquedos."

Aqui em casa, eu utilizo a previsibilidade sempre que posso.

Se preciso que o Noah vá tomar banho, por exemplo, costumo avisá-lo cerca de cinco minutos antes.

Assim, ele sabe que o tempo daquela atividade está acabando. Quando os cinco minutos chegam ao fim, ele já teve tempo de se preparar mentalmente para aquilo que vai acontecer.

E isso faz muita diferença.

Funciona todas as vezes?

Bom... estamos falando de uma criança, então, claro que não.

Mas faço isso desde que ele tinha apenas um ano, então ele já está bastante acostumado com esses combinados. Na nossa experiência, funciona em aproximadamente 90% das vezes.

E hoje acontece uma coisa que eu acho até engraçada.

Quando eu esqueço de dar aqueles minutinhos de aviso e simplesmente digo que precisamos fazer alguma coisa, ele mesmo me lembra:

"Mamãe, só mais um pouquinho."

E eu respondo:

"Ok. Só mais cinco minutinhos."

É quase mágico.

Quando os cinco minutos terminam e eu aviso que acabou o tempo, ele normalmente compreende e vai fazer aquilo que combinamos sem grandes problemas.

Às vezes, é claro, ele reclama:

"Ah, não, mamãe..."

Eu apenas relembro:

"Mas nós combinamos que seriam só mais cinco minutos. Agora acabou e precisamos fazer o que eu pedi."

E seguimos.

Mas existe uma parte muito importante desse combinado: se você falou que seria só mais um, precisa ser só mais um. Se falou cinco minutos, são cinco minutos.

Não transforme os cinco minutos em dez porque a criança pediu mais. Não diga "só mais um pouquinho" várias vezes até perder completamente o sentido do combinado.

Porque a previsibilidade só funciona quando a criança pode confiar no que você está dizendo.

Se você avisa que determinada coisa vai acontecer, ela precisa acontecer. E isso vale para os dois lados.

Se você disser:

"Mais cinco minutos e acabou."

Quando os cinco minutos terminarem, acabou.

Não porque você quer ser rígida, mas porque seu filho está aprendendo que aquilo que a mãe fala é previsível e confiável.

E, com o tempo, isso pode tornar as transições do dia a dia muito mais tranquilas.

Já nos casos de birras maiores dentro de casa, costumo lidar de uma forma bem simples.

Primeiro, deixo muito claros os limites que sempre reforçamos por aqui. Na nossa casa, existem algumas regras que não deixam de existir só porque ele está bravo:

Não pode bater. Não pode jogar coisas no chão por estar com raiva. Não pode desrespeitar ninguém com palavras.

Essas são regras que continuam valendo mesmo durante uma birra.

Fora isso, ele pode chorar, se jogar no chão, ficar bravo e pode até não querer contato físico naquele momento. E tudo bem.

Eu deixo claro que estou ali caso ele queira um abraço, um colo ou algum conforto, mas não obrigo o contato. Se ele quiser ficar sozinho por alguns minutos para colocar aquela emoção para fora, tudo bem também. Eu continuo por perto, disponível.

Existem situações mais complicadas, é claro.

Às vezes, preciso que ele se arrume e justamente naquele momento ele está no meio de uma birra. Nesses casos, primeiro tento conversar, entender o que está acontecendo e ajudá-lo a se acalmar.

E se não funcionar, vai chorando mesmo.

Sempre com carinho, sempre com palavras de acolhimento, mas vamos fazer o que precisa ser feito.

Porque existem coisas que simplesmente não podemos controlar. Eu não consigo escolher o sentimento que meu filho vai ter diante de uma situação. Não consigo decidir se ele vai ficar bravo, triste ou frustrado.

E, sinceramente, nem quero.

Aquele é o momento em que ele está colocando para fora alguma coisa que não o deixou feliz. E eu não preciso impedir que ele sinta.

Preciso apenas ajudá-lo a passar por aquilo sem ultrapassar os limites que existem dentro da nossa casa.

Por isso, tento sempre lidar com a birra com tranquilidade. Não quero transformar a frustração dele em uma disputa entre nós dois.

Nas conversas durante a birra, gosto muito de nomear aquilo que ele está sentindo.

"Você está bravo, eu entendo. Mas precisamos mesmo nos arrumar agora."

"Eu sei que você está triste porque queria continuar brincando. Mas agora precisamos guardar os brinquedos."

E, se algum desses limites for ultrapassado, eu não deixo passar. Corrijo imediatamente, mas sem transformar a correção em uma segunda batalha.

Se ele bater, eu impeço. Se jogar alguma coisa, retiro o objeto. Ou se usar palavras desrespeitosas, explico que ele pode estar bravo, mas não pode falar daquela maneira.

O sentimento continua sendo permitido.

O comportamento, nem sempre.

E essa diferença, para mim, é fundamental.

Meu filho pode sentir raiva. O que ele precisa aprender é o que pode fazer com essa raiva.

2. Atente-se ao seu próprio comportamento

Existe uma coisa que considero muito importante quando falamos sobre o comportamento das crianças: elas aprendem muito mais com aquilo que veem do que com aquilo que simplesmente escutam.

Não digo isso para te assustar, muito menos para colocar sobre você a responsabilidade por cada comportamento do seu filho. Crianças aprendem o tempo inteiro, em todos os lugares, e podem reproduzir comportamentos que viram uma única vez.

Mas dentro de casa existe algo diferente: a repetição.

Se uma criança ouve que não pode bater, mas presencia frequentemente os adultos resolvendo conflitos com agressividade, existe uma contradição entre aquilo que estamos ensinando com as palavras e aquilo que estamos ensinando com o exemplo.

Imagine, por exemplo, que seu filho tenha um conflito com um amigo na escola. O amigo pega um brinquedo que ele queria, ele fica bravo e não sabe o que fazer com aquela frustração. É natural que ele procure, dentro do repertório que já conhece, uma forma de reagir.

Isso significa que toda criança que bate aprendeu a bater dentro de casa? Claro que não.

Crianças aprendem muito rápido e podem reproduzir comportamentos que viram em qualquer ambiente. Uma única experiência pode ser suficiente para que elas tentem repetir alguma coisa.

O que quero te convidar a observar é outra coisa: quais comportamentos estamos ensinando sem perceber, através das nossas próprias atitudes?

Se seu filho grita muito, talvez valha a pena observar como os conflitos costumam ser resolvidos dentro de casa. Será que os adultos também levantam a voz com frequência? Talvez você possa experimentar diminuir o tom, mesmo quando estiver irritada.

Se seu filho bate, reflita sobre como a agressividade é tratada na sua casa. Se em algum momento você percebeu que também recorreu a ela, não precisa transformar essa descoberta em culpa. Ela pode ser simplesmente o ponto de partida para uma mudança.

E, principalmente, não pense que, porque determinado comportamento acontece há muito tempo, ele não pode ser diferente.

Dá tempo de mudar.

A criança continua aprendendo. O ambiente continua ensinando. E nós, adultos, também podemos aprender novas formas de agir.

Talvez, na próxima situação em que você perceber que está prestes a perder a paciência, seja suficiente respirar fundo. Se precisar, afaste-se por alguns segundos. Tome água. Dê a si mesma um tempo para recuperar o controle e só então volte para a situação.

E quando voltar, tente se abaixar até a altura da criança e conversar com ela da maneira como você conversaria com uma criança que não é tão íntima de você.

Parece curioso, mas às vezes conseguimos ter muito mais paciência com o filho de outra pessoa do que com o nosso próprio filho.

Com quem não temos intimidade, respiramos antes de responder. Escolhemos melhor as palavras. Pensamos duas vezes antes de reagir.

Com nossos filhos, justamente porque existe amor, cansaço, intimidade, rotina e uma quantidade enorme de sentimentos envolvidos, às vezes acabamos reagindo no automático.

Então, talvez o exercício seja justamente esse: tentar oferecer ao nosso filho a mesma calma que somos capazes de oferecer a uma criança que não é nossa.

Não vai funcionar perfeitamente todas as vezes. Você ainda vai perder a paciência. Ainda vai errar. Eu também.

Mas, aos poucos, você começa a perceber que aquilo que antes era automático pode se tornar uma escolha.

E quando você muda a maneira como reage, seu filho ganha a oportunidade de aprender uma nova maneira de reagir também.

Não é sobre ser uma mãe perfeita. É sobre lembrar que, enquanto ensinamos nossos filhos a lidar com o mundo, eles também estão aprendendo conosco como fazer isso.

3. Birras em público

Esse é, provavelmente, o terror de muitas mães. E eu não vou me excluir dessa lista.

Uma birra dentro de casa já pode ser cansativa. Mas quando acontece em público, parece que tudo fica maior.

E, para mim, muitas vezes, nem é pelo que está acontecendo com o meu filho. É pelo que está acontecendo ao nosso redor.

Você sente os olhares. Percebe os cochichos. Começa a imaginar o que as pessoas estão pensando. E, de repente, além de precisar lidar com uma criança frustrada, você também sente que precisa lidar com a plateia.

Acho que quase toda mãe já passou por isso.

E se você nunca passou, aproveite! Você é uma das poucas sortudas.

Mas, antes de qualquer coisa, quero que você se lembre de algo que já conversamos aqui: uma birra não deixa de ser uma birra porque aconteceu fora de casa.

Seu filho continua sendo uma criança que está aprendendo a lidar com as próprias emoções. O ambiente mudou, as pessoas mudaram, os estímulos aumentaram, mas ele continua precisando da mesma coisa: de um adulto que consiga ajudá-lo a passar por aquele momento.

Então, em primeiro lugar, esqueça as pessoas ao redor.

Não importa o que estão pensando.

Você não precisa explicar a situação para ninguém. Não precisa provar que é uma boa mãe. Não precisa fazer seu filho parar de chorar rapidamente para que as pessoas parem de olhar.

Naquele momento, existe uma pessoa que realmente precisa da sua atenção: seu filho.

E é nele que você deve se concentrar.

Primeiro: retire a criança do excesso de estímulos

A primeira coisa que costumo fazer quando meu filho tem uma birra em público é tirá-lo do meio das pessoas.

Se estamos em um churrasco de família, por exemplo, pode ser ainda mais difícil. Tem alguém tentando ajudar, alguém falando por cima do choro, a avó dizendo "ah, deixa ele, ele é só uma criança", outra pessoa tentando distrair, outra querendo saber o que aconteceu...

E, mesmo que todos estejam tentando ajudar, naquele momento isso pode acabar deixando tudo ainda mais confuso.

Por isso, se for possível, eu prefiro tirar meu filho daquele ambiente.

Não importa muito onde. Pode ser um banheiro, um quarto, um corredor, um cantinho mais afastado, o carro ou simplesmente um lugar mais silencioso.

O objetivo não é isolar a criança como forma de castigo. É diminuir os estímulos.

Pense na quantidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo: pessoas falando, crianças correndo, música, televisão, barulho, luzes, objetos, cheiros, movimentação...

Para uma criança que já está emocionalmente desorganizada, tudo isso pode ser demais.

Então, antes de tentar ensinar alguma coisa, eu primeiro tento diminuir o caos ao redor.

Não é hora de dar uma bronca

Depois que você consegue tirar a criança daquele excesso de estímulos, tente não transformar aquele momento em uma grande bronca.

Ela está chorando, frustrada, irritada e, muitas vezes, sequer consegue ouvir direito o que você está dizendo.

Primeiro, ajude-a a se acalmar.

Fale mais baixo. Diminua o ritmo. Fique perto.

Pergunte se ela quer um abraço.

Se quiser contato, abrace. Se não quiser, respeite e permaneça por perto.

Frases simples podem ajudar:

"Estou aqui."

"Eu sei que você ficou bravo."

"Está tudo bem, a mamãe está aqui."

"Vamos respirar juntos."

"Quando você estiver mais calmo, a gente conversa."

E perceba que acolher não significa concordar com o comportamento.

Você não está dizendo que aquilo que aconteceu está certo.

Está apenas mostrando:

"Eu consigo lidar com a sua emoção, mesmo quando você está tendo dificuldade para lidar com ela."

Depois que a tempestade passar, aí sim conversamos

Quando a criança estiver mais calma, aí sim podemos conversar sobre o que aconteceu.

Relembrar o limite.

Explicar novamente a regra.

Falar sobre o comportamento que não foi permitido.

E, principalmente, fazer isso com palavras que a criança consiga compreender.

Imagine, por exemplo, que seu filho queria subir em cima da mesa.

Depois que ele estiver tranquilo, você pode explicar:

"Você queria subir na mesa, eu sei. Mas na mesa as pessoas comem. Nossos sapatos estão sujos e podem levar sujeira para onde colocamos a comida. Por isso, não podemos subir ali."

Se durante a birra algum limite também foi ultrapassado, isso não precisa ser ignorado.

Você pode acolher o sentimento e, ainda assim, corrigir o comportamento.

"Eu sei que você ficou muito bravo. Mas você bateu na mamãe, e bater não pode."

Ou:

"Eu entendo que você ficou bravo, mas gritar com as pessoas não é permitido."

Perceba a diferença.

Você não está dizendo:

"Você foi horrível porque fez isso."

Está dizendo:

"Eu entendo o que você sentiu, mas esse comportamento continua não sendo permitido."

Sempre que possível, ofereça uma alternativa

Uma coisa que gosto muito de fazer é mostrar para a criança o que ela pode fazer, em vez de apenas repetir o que ela não pode.

Se não podemos subir na mesa:

"Na mesa não podemos subir. Mas você pode sentar na cadeira."

Ou:

"Você pode brincar aqui no chão."

Ou:

"Se quiser correr, podemos ir lá fora."

A criança precisa aprender que um limite não significa que tudo acabou.

Às vezes, ela só precisa encontrar outra possibilidade.

E isso pode ser muito mais eficiente do que repetir dez vezes:

"Não pode. Não pode. Não pode."

Antes de voltar, façam um combinado

Antes de voltar para o ambiente, gosto de conversar novamente com meu filho sobre o que vai acontecer.

Não precisa ser uma conversa longa.

Algo simples:

"Então agora vamos voltar. Se alguma coisa não estiver legal, você pode vir falar comigo. Não precisa bater, não precisa gritar. Você vem até a mamãe e a gente tenta resolver juntos, combinado?"

Repita quantas vezes forem necessárias.

E, dependendo da situação, faça combinados para o restante do passeio.

"Vamos voltar, mas se você ficar cansado, me avisa."

"Se quiser alguma coisa, vem falar comigo."

"Se ficar bravo, pode me chamar."

Isso dá para a criança uma espécie de caminho para seguir caso a frustração apareça novamente.

E ela pode aparecer.

A birra pode não terminar quando o choro acaba

Essa é uma coisa que demorei para entender.

Depois de uma grande birra, a criança pode continuar mais sensível por algum tempo.

Pode ficar irritada com mais facilidade, chorar por coisas menores ou se frustrar novamente pouco depois.

E isso faz sentido.

Pense em nós mesmos depois de um momento de muito estresse. Nem sempre conseguimos simplesmente respirar fundo e voltar ao nosso estado normal em segundos.

Com eles, pode levar ainda mais tempo.

Então, depois de uma grande birra, talvez seja interessante diminuir um pouco as expectativas.

Tenha mais paciência, relembre os combinados, dê espaço quando necessário, ofereça carinho e, principalmente, não transforme uma primeira birra em uma sequência de conflitos pelo resto do dia.

Se a criança já passou por um momento emocionalmente intenso, talvez ela precise de um pouco mais de ajuda para se reorganizar.

Talvez ela ainda chore.

Talvez ainda fique brava.

Talvez as pessoas continuem olhando.

Talvez você fique constrangida.

Tudo bem.

O seu objetivo não é fazer com que seu filho pare de sentir para que o mundo ao redor fique confortável.

É ensinar, pouco a pouco, que ele pode sentir raiva, tristeza, frustração e decepção sem machucar ninguém, sem desrespeitar os outros e sem ultrapassar os limites que vocês estabeleceram.

E isso não acontece em um único passeio.

Acontece na repetição.

Uma conversa de cada vez.

Uma birra de cada vez.

Um limite de cada vez.

Até que, aos poucos, aquilo que hoje parece impossível de administrar comece a fazer parte do aprendizado da criança e do seu também.

4. Birras em loja de brinquedos

Essa dica é muito legal. Uma vez, compartilhei essa ideia com as minhas seguidoras e muitas delas adoraram. Então, é claro que eu não poderia deixar de trazer para vocês aqui no livro.

Toda criança ama uma loja de brinquedos. E, se formos sinceras, nós, adultos, também gostamos de dar uma olhadinha nas novidades.

Mas, por aqui, durante um tempo, entrar em uma loja de brinquedos estava começando a ficar complicado.

Era praticamente certo: entrávamos na loja e começava o pedido por algum brinquedo.

E eu entendia completamente.

A criança vê centenas de coisas interessantes, encontra personagens de que gosta, brinquedos que nunca tinha visto... É muita novidade de uma vez.

O problema é que nem sempre estamos em um momento em que podemos comprar alguma coisa. Às vezes não temos disponibilidade financeira. Outras vezes simplesmente não é o momento de comprar um brinquedo novo.

Não podemos (e nem precisamos) atender a todos os desejos dos nossos filhos.

Foi então que eu me lembrei de uma dica que, sinceramente, nem sei mais onde encontrei. Não lembro se foi em algum dos livros que li ou em algum vídeo aleatório sobre maternidade que assisti. Seja lá de onde veio, até hoje agradeço à pessoa que teve essa genial ideia.

E o mais interessante é que ela começa antes mesmo de entrarmos na loja.

Como já conversamos, a previsibilidade pode ser uma grande aliada na hora de evitar algumas frustrações.

Então, antes de sair de casa, converse com a criança.

Explique para onde vocês vão, o que irão fazer e, principalmente, o que pode e o que não pode acontecer.

Por exemplo:

"Hoje vamos ao shopping jantar. Vamos passar por algumas lojas, mas hoje não vamos comprar brinquedo."

Parece simples, mas essa conversa faz diferença.

A criança já sai de casa sabendo o que esperar. Ela não chega à loja acreditando que, porque está ali, necessariamente vai ganhar alguma coisa e só descobre que não quando encontra aquele brinquedo maravilhoso na prateleira.

Mas aqui vem a parte que, para mim, fez toda a diferença.

Em vez de simplesmente dizer:

"Hoje não vamos comprar."

Eu ensino que não comprar hoje não significa que aquele brinquedo precisa ser esquecido.

Explique para a criança que vocês podem criar uma lista de desejos.

Pode ser uma lista para o aniversário, Natal, Dia das Crianças ou qualquer outra data em que ela costume ganhar presentes.

E aí vem a parte divertida: vocês podem tirar fotos dos brinquedos que ela gostar.

Antes de sair de casa, você pode explicar:

"Hoje nós não vamos comprar brinquedo, mas, se você encontrar algum que gostar muito, podemos tirar uma foto para colocar na sua lista de presentes. Depois, quando chegar a época de ganhar um presente, vamos olhar sua lista juntos e você poderá escolher o que mais gostou."

Percebe a diferença?

A criança não precisa simplesmente ouvir um "não".

Ela ganha uma outra possibilidade.

E quando chegar à loja?

Cumpra o combinado.

Se a criança encontrar um brinquedo maravilhoso e ficar toda empolgada, não ignore o entusiasmo dela só porque você já explicou que não vai comprar.

Pelo contrário. Demonstre interesse.

Se ela encontrar aquele brinquedo do personagem favorito, por exemplo, você pode falar:

"Uau! Esse é muito legal mesmo! Olha, é daquele seu personagem preferido!"

E então:

"O que você acha de tirarmos uma foto para colocar na nossa lista?"

É incrível como a atenção deles pode mudar.

A procura deixa de ser:

"O que eu posso conseguir que minha mãe compre para mim?"

E começa a ser:

"O que eu quero colocar na minha lista?"

De repente, a criança começa a observar os brinquedos com outro olhar.

"Esse aqui é legal!"

"Tira foto desse!"

"Olha esse, mamãe!"

"Esse eu quero na minha lista!"

E aquilo que antes poderia terminar em choro pode se transformar em uma atividade entre vocês.

Por aqui, isso foi um sucesso.

Uma vez, meu filho gostou tanto de um brinquedo que eu já fui logo perguntando:

"Então, vamos tirar uma foto dele?"

E ele me respondeu com:

"Esse não precisa, mamãe."

Depois que começamos a fazer dessa forma, as birras nas lojas de brinquedos simplesmente deixaram de acontecer.

Criei uma pasta no meu celular com as fotos dos brinquedos que o Noah escolhe.

Quando chega perto de alguma data em que ele vai ganhar presentes, abrimos a pasta juntos e olhamos novamente tudo o que ele escolheu.

E aqui surgiu uma coisa que eu achei ainda mais interessante: a lista também virou uma oportunidade de aprendizado.

Às vezes, ele vê uma foto de um brinquedo que pediu algumas semanas antes e já não demonstra o mesmo interesse.

"Esse eu não quero mais."

O encanto passou.

Outras vezes, ele começa a comparar os brinquedos.

"Eu gosto mais desse do que daquele."

Ou percebe que determinado brinquedo tem mais coisas que ele gostaria de brincar.

Aos poucos, ele começa a entender que querer alguma coisa naquele exato momento não significa necessariamente que continuará querendo depois.

E isso, para mim, é um aprendizado enorme.

Porque não estamos apenas evitando uma birra.

Estamos ensinando a criança a esperar, escolher, priorizar e lidar com o desejo de ter alguma coisa sem precisar tê-la imediatamente.

Também estamos mostrando que o "não podemos comprar agora" não significa "você não pode querer".

Você pode querer.

Pode achar lindo.

Pode ficar animado.

Pode colocar na sua lista.

Só não precisa levar para casa naquele momento.

E talvez seja justamente isso que torne essa estratégia tão interessante. Porque ela não transforma a criança em alguém que não deseja. Ela ensina a criança a lidar com o próprio desejo.

E, claro, cada criança é diferente. O que funciona maravilhosamente bem aqui pode precisar de adaptações na sua família.

Mas, se você passa por muitas dificuldades nas lojas de brinquedos, vale a pena experimentar.

Por aqui, uma simples pasta de fotos no celular acabou se transformando em uma das ferramentas mais legais que encontramos para ensinar o Noah sobre espera, escolhas e frustração.

E, de quebra, nossas idas às lojas de brinquedos ficaram muito mais tranquilas.

5. Castigos

Esse é um assunto delicado e, justamente por isso, pensei bastante antes de decidir trazê-lo para o livro.

Quando falamos em "castigo", cada pessoa pode imaginar uma coisa diferente. Algumas pensam em ficar de joelhos no milho, apanhar, ser humilhadas, ficar trancadas em algum lugar ou passar horas sem poder fazer alguma coisa. Não é disso que estou falando aqui.

Inclusive, quando comecei a estudar sobre educação positiva e respeitosa, aprendi que a proposta é justamente não utilizar punições como ferramenta de educação. Li bastante sobre isso e, por muito tempo, tinha decidido que também não utilizaria nenhum tipo de castigo com o Noah.

Mas a maternidade acontece na vida real. E, sendo muito sincera com você, percebi que, em algumas situações, acabei encontrando uma maneira diferente de trabalhar com consequências dentro da nossa casa.

Não quero apresentar isso como a maneira certa de fazer. Estou apenas compartilhando aquilo que acontece por aqui e explicando como faço para que você consiga entender a diferença entre o que considero uma consequência e aquilo que, para mim, seria uma punição.

Aqui em casa, isso acontece apenas em situações muito específicas, quando determinado comportamento ultrapassa de maneira importante os limites que já foram estabelecidos.

E existe uma regra que considero fundamental: a consequência precisa estar relacionada à situação e nunca deve envolver violência, humilhação, medo ou retirada de amor e afeto.

Vou te dar um exemplo.

Imagine que o Noah esteja insistindo em usar uma fantasia em um lugar onde não é permitido, como a escola.

Primeiro, eu converso.

Explico que naquele lugar não podemos usar aquela roupa e explico o motivo, quando existe um motivo que ele consegue compreender.

Se, além de insistir, ele passa a me desrespeitar, por exemplo, tentando me bater, eu interrompo imediatamente esse comportamento.

Posso dizer:

"Eu entendo que você está bravo porque queria usar a fantasia. Mas você não pode bater em mim. Se você continuar batendo, essa fantasia vai ficar guardada por hoje."

Se ele continuar, eu cumpro aquilo que falei.

A fantasia fica guardada.

Não porque eu quero fazê-lo sofrer ou porque preciso "dar uma lição", mas porque ele precisa aprender que determinadas atitudes têm consequências e que aquilo que eu digo realmente será cumprido.

E perceba uma coisa importante: eu não tiro meu amor, meu carinho ou minha presença.

Ele continua sendo meu filho. Continua podendo receber um abraço. Continua podendo conversar comigo. Continua sendo acolhido.

O limite está no comportamento e naquilo que está sendo permitido naquele momento.

Um outro exemplo é quando um brinquedo é jogado no chão durante uma birra. Essa é uma das regras da nossa casa e algo que não permito que seja ultrapassado.

Faço da mesma maneira: aviso uma vez e explico que não pode jogar o brinquedo. Se ele repetir o comportamento naquele mesmo momento, explico com tranquilidade que, como aquele brinquedo está sendo utilizado para ser jogado no chão, ele ficará guardado e não estará disponível para brincar naquele momento.

Não é sobre tirar o brinquedo para fazê-lo sofrer. É sobre mostrar que, se ele não consegue utilizá-lo de uma maneira segura naquele momento, eu, como adulta responsável, vou retirá-lo da situação.

Quando ele estiver mais calmo e puder brincar novamente sem jogá-lo, o brinquedo volta a estar disponível.

Assim, a consequência está diretamente relacionada ao que aconteceu: se o brinquedo está sendo usado para machucar, quebrar ou ser arremessado, ele deixa de estar disponível naquele momento.

E, novamente, não existe retirada de carinho, de atenção ou de amor. O limite é para o comportamento, não para a criança.

Para mim, essa diferença é enorme.

Não quero que meu filho pense: "Minha mãe deixou de me amar porque eu fiz algo errado."

Quero que ele aprenda:

"Minha mãe me ama, mas existem comportamentos que ela não vai permitir."

E isso também significa que a consequência não precisa ser enorme.

Crianças pequenas não precisam de castigos gigantescos para compreender que determinada atitude teve uma consequência.

Às vezes, algumas horas sem aquela coisa específica já são suficientes.

No exemplo da fantasia, poderia ser apenas não utilizá-la novamente naquele dia. Em uma situação mais séria, talvez eu mantenha a decisão por mais tempo.

O importante é que faça sentido dentro daquela situação.

E existe outro ponto que considero muito importante: não ameace com aquilo que você não pretende cumprir.

Se você disser:

"Se você continuar fazendo isso, nós vamos embora."

Então esteja preparada para ir embora se a criança continuar.

Se você disser:

"Se você bater novamente, a fantasia vai ficar guardada."

Então, se acontecer novamente, cumpra o que falou.

Não diga algo apenas para fazer a criança parar naquele momento.

Porque, quando fazemos ameaças que nunca são cumpridas, aos poucos nossas palavras perdem força.

A criança aprende que aquele "se você fizer isso..." não significa necessariamente que alguma coisa vai acontecer.

E não é isso que quero ensinar.

Quero que meu filho saiba que pode confiar naquilo que eu digo.

Se eu estabeleço um limite, ele existe.

Se eu digo que determinada coisa vai acontecer como consequência de determinado comportamento, eu cumpro.

Mas também existe uma responsabilidade nossa nisso: não podemos sair distribuindo consequências para tudo.

Precisamos pensar antes de falar.

Não adianta, no meio da raiva, dizer:

"Você nunca mais vai brincar com isso!"

Se sabemos que amanhã estaremos deixando a criança brincar novamente.

Por isso, se você escolher trabalhar dessa maneira, pense antes de estabelecer a consequência. Ela precisa ser possível, proporcional e coerente com o que aconteceu.

E, principalmente, não deve ser usada para descontar a nossa raiva.

Porque existe uma diferença muito grande entre uma mãe dizer:

"Você bateu em mim. Eu não permito que você faça isso. Por isso, a fantasia ficará guardada hoje."

E uma mãe, tomada pela raiva, dizer:

"Você fez isso comigo? Então agora vai ficar uma semana sem fantasia!"

A primeira situação ensina.

A segunda pode simplesmente ser uma reação da nossa própria raiva.

E é justamente essa diferença que eu quero que você perceba.

Não estou dizendo que você precisa utilizar castigos na educação do seu filho.

Na verdade, talvez você leia tudo isso e conclua que não quer utilizar nenhum.

Tudo bem.

O que quero compartilhar é que, na minha experiência, algumas consequências bem específicas acabaram funcionando dentro da nossa realidade.

E, mesmo nesses momentos, continuo tentando manter aquilo que conversamos durante todo este livro: respeito, diálogo, acolhimento e limites.

Porque o objetivo nunca é fazer a criança sofrer por ter errado.

O objetivo é ajudá-la a entender que suas escolhas têm consequências.

Capítulo 12

E quando quem perde o controle sou eu?

Agora, vamos falar de seres humanos.

Vamos sair, por alguns minutos, daquele ideal da mãe perfeita e olhar para as pessoas que existem por trás da criação desses pequenos seres.

Pessoas comuns.

Como eu.

Como você.

Pessoas que acertam, erram, perdem a paciência, sentem culpa, se arrependem, reconhecem seus erros e tentam fazer diferente.

Porque, por mais que eu tenha passado tantas páginas falando sobre respeito, limites, acolhimento e sobre a importância de manter a calma diante das emoções dos nossos filhos, existe uma pergunta que talvez você esteja fazendo:

"E quando quem perde o controle sou eu?"

Eu preciso te responder com muita honestidade:

Eu também perco.

Não sou uma mãe perfeita.

Já ultrapassei limites que um dia estabeleci para mim mesma. Já gritei quando gostaria de ter falado com calma. Já reagi de uma maneira que, depois, me fez pensar: "Eu poderia ter feito diferente."

E algumas dessas vezes doeram muito.

Já chorei de raiva de mim mesma.

Já me culpei. E me culpei muito.

Talvez isso seja ainda mais difícil para mim porque escolhi trabalhar com a internet e porque uma das coisas que mais gosto de compartilhar com as pessoas que me acompanham é justamente a minha maternidade.

Eu amo mostrar minha rotina com o Noah.

Amo compartilhar as coisas que aprendo.

Amo falar sobre educação, sobre limites, sobre respeito e sobre as maneiras que encontrei de lidar com determinadas situações.

Então, quando eu erro justamente naquilo que ensino, uma sensação muito difícil aparece:

"Como posso incentivar outras mães a serem respeitosas com os filhos se, em algum momento, eu mesma não consegui ser?"

Durante muito tempo, isso me fez sentir uma impostora.

Quando eu tinha um dia ruim com o Noah, às vezes deixava até de compartilhar minha rotina. Sentia que não era digna de falar sobre maternidade naquele dia. Como se, para poder ensinar alguma coisa, eu precisasse primeiro conseguir fazer tudo perfeitamente.

E foi muito difícil entender que não funciona assim.

Na verdade, talvez seja justamente o contrário.

Eu não falo sobre essas coisas porque consegui fazer tudo certo.

Eu falo porque estou aprendendo.

E porque continuo aprendendo.

Isso é algo que nunca tinha exposto dessa maneira antes. Talvez porque quem trabalha com a internet conheça bem o peso do julgamento.

É muito fácil mostrar um momento bonito. Uma criança obedecendo. Uma conversa tranquila. Uma mãe conseguindo manter a calma.

Muito mais difícil é mostrar o momento em que você fecha a porta do quarto e pensa:

"Eu não gostei da maneira como agi."

Mas achei importante trazer isso para este livro.

Porque talvez exista uma mãe lendo estas páginas agora que esteja exatamente nesse lugar. Uma mãe que acabou de perder a paciência. Que gritou. Que falou alguma coisa da qual se arrependeu. Que chorou depois que o filho dormiu porque ficou pensando que poderia ter feito diferente.

E eu quero que ela saiba uma coisa:

um erro não apaga todo o esforço que você faz para ser uma boa mãe.

Mas também quero te dizer outra coisa, porque acredito que precisamos ser honestas umas com as outras:

não devemos normalizar o desrespeito só porque somos mães cansadas.

Errar é humano.

Perder a paciência pode acontecer.

Mas reconhecer o erro também faz parte da responsabilidade de ser mãe.

O problema não está apenas em errar. Está em errar e acreditar que não há nada de errado com aquilo. Está em se recusar a reconhecer o erro. Está em colocar a culpa na criança.

Está em usar o próprio cansaço como justificativa para continuar repetindo um comportamento que sabemos que não queremos reproduzir.

E existe uma diferença enorme entre culpa e responsabilidade.

A culpa diz:

"Eu sou uma péssima mãe."

A responsabilidade diz:

"Eu errei. Não gostei da maneira como agi. O que posso fazer diferente da próxima vez?"

A primeira pode nos destruir.

A segunda pode nos transformar.

Por isso, quando você errar, peça desculpas ao seu filho.

Mesmo que ele seja pequeno. Mesmo que você pense que ele não vai entender.

Ajoelhe-se, olhe nos olhos dele e diga:

"Me desculpa, filho. Eu errei."

Diga o que aconteceu.

"Eu gritei com você e não deveria ter gritado."

"Eu falei de uma maneira que não foi respeitosa."

"Eu estava muito brava, mas isso não justifica a forma como falei com você."

E não tente transformar o pedido de desculpas em uma justificativa.

Não diga:

"Desculpa ter gritado, mas você também estava me irritando."

Isso não é assumir responsabilidade.

Você pode conversar sobre o comportamento da criança depois. Pode corrigir o que ela fez. Pode reafirmar um limite.

Mas uma coisa não anula a outra.

Se seu filho errou, ele precisa aprender com o erro dele. Se você errou, você também precisa aprender com o seu.

Dois erros não fazem um acerto.

E talvez exista uma lição muito bonita nisso tudo:

você pode ensinar seu filho a pedir desculpas sendo a primeira pessoa a pedir desculpas.

Pode ensinar que adultos também erram. Que reconhecer um erro não diminui ninguém. Que pedir desculpas não significa ser fraco. Que podemos amar alguém e, ainda assim, admitir que tivemos uma atitude errada.

E, depois de pedir desculpas, faça uma coisa que talvez seja ainda mais difícil:

pare de se punir.

Não estou dizendo para fingir que nada aconteceu.

Não estou dizendo para pensar "faz parte" e continuar fazendo a mesma coisa.

Estou dizendo para olhar para o erro, aprender com ele e seguir.

Porque se você passar os próximos três dias se chamando de péssima mãe, isso não vai ajudar você a ser uma mãe mais paciente amanhã.

O que pode ajudar é pensar:

"O que me levou até aquele ponto?"

Eu estava exausta?

Estava sobrecarregada?

Estava tentando resolver dez coisas ao mesmo tempo?

Ignorei os sinais de que estava chegando ao meu limite?

O que eu poderia fazer diferente antes de chegar naquele ponto novamente?

Foi assim que comecei a perceber os meus próprios sinais.

Hoje, consigo identificar muito melhor quando estou chegando ao meu limite. E, quando percebo que estou prestes a perder o controle, muitas vezes prefiro me afastar.

Mesmo que isso signifique entrar no quarto por alguns minutos. Respirar, chorar, ficar em silêncio, às vezes até gritar no travesseiro.

Qualquer coisa que me ajude a tirar aquela explosão de dentro de mim sem colocá-la sobre o meu filho.

Depois eu volto. Mais calma, mais consciente. E consigo continuar aquela conversa de uma maneira muito diferente.

Ainda erro?

Claro que sim. Mas hoje erro muito menos do que errava quando as birras começaram.

E, principalmente, aprendi a perceber mais rápido quando estou chegando perto do meu limite.

Isso também é aprendizado.

Porque talvez você tenha chegado até aqui acreditando que uma maternidade respeitosa significa nunca levantar a voz, nunca perder a paciência, nunca se arrepender de uma reação.

Não significa.

Educação respeitosa não exige uma mãe perfeita.

Exige uma mãe disposta a olhar para si mesma. A reconhecer quando erra. Disposta a reparar, a tentar novamente. E, principalmente, disposta a mudar aquilo que percebe que precisa ser mudado.

O cansaço cobra um preço.

A exaustão cobra um preço.

A sobrecarga cobra um preço.

Mas nossos filhos não precisam pagar essa conta.

Eles não têm culpa pelo nosso cansaço.

E talvez uma das formas mais bonitas de cuidar deles seja justamente aprender a cuidar de nós mesmas antes de chegar ao ponto em que não conseguimos mais oferecer aquilo que gostaríamos.

Então, se você perdeu o controle hoje, respire.

Olhe para o seu filho. Peça desculpas, se precisar. Repare o que puder reparar e depois olhe para você mesma. Não para se castigar. Para entender.

O que aconteceu?

Por que eu cheguei naquele ponto?

O que posso fazer diferente da próxima vez?

Talvez você precise pedir ajuda ou descansar mais. Talvez precise aprender a reconhecer seus limites antes que eles sejam ultrapassados. Ou precise mudar algumas coisas na rotina. Talvez simplesmente começar a fazer uma pausa antes de responder.

Não importa qual seja a resposta.

O importante é que exista uma.

Porque reconhecer que você errou é importante. Mas estar disposta a fazer diferente é o que transforma o erro em aprendizado.

E eu espero que, quando você terminar este capítulo, não pense:

"Preciso ser uma mãe perfeita."

Espero que pense:

"Eu posso errar e ainda assim escolher fazer melhor."

Porque é isso que eu também estou aprendendo.

Todos os dias.

Capítulo 13

A pessoa que estamos criando

Chegamos ao ponto final do livro.

E escolhi terminar todas as nossas conversas falando um pouco sobre o motivo que me fez escrever tudo isso para você.

Eu escrevi este livro pensando em te ajudar. Em trazer um pouco de conforto para aqueles dias difíceis, alguma ideia que facilite a rotina, uma reflexão que faça sentido para você, conhecimentos que aprendi ao longo do caminho e experiências que, de alguma forma, possam tornar a sua maternidade um pouco mais leve.

Mas, acima de tudo isso, existe um motivo ainda maior.

Eu escrevi pensando nas crianças.

Em todas aquelas que, de alguma maneira, posso alcançar através destas páginas. Pode ser uma criança. Podem ser milhares. E, sinceramente, se alguma coisa que você leu aqui fizer com que uma criança tenha uma infância um pouquinho mais tranquila, mais respeitosa, mais acolhedora e mais feliz, eu já sinto que este livro cumpriu um dos meus maiores propósitos de vida.

Porque criar um ser humano não é uma tarefa simples.

Nós não estamos apenas ensinando uma criança a guardar os brinquedos, tomar banho, obedecer a uma regra ou parar de fazer uma birra.

Estamos ensinando alguém que, daqui a alguns anos, será um adulto.

Um adulto que vai sair das nossas casas e encontrar um mundo inteiro pela frente.

E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades que recebemos quando nos tornamos mães e pais: cuidar, educar e preparar uma pessoa para viver em um mundo do qual nós não poderemos protegê-la para sempre.

O mundo não é um lugar fácil.

Nossos filhos vão encontrar pessoas boas e pessoas ruins. Vão encontrar pessoas gentis, pessoas egoístas, pessoas feridas, pessoas diferentes deles em tantos aspectos. Vão conhecer injustiças, frustrações, perdas, decepções e situações que nós gostaríamos de poder evitar.

Também vão precisar aprender a conviver com pessoas que pensam diferente, que sentem diferente, que vivem histórias completamente diferentes das suas.

E nós não estaremos ao lado deles em todos esses momentos.

É por isso que, para mim, a educação vai muito além de ensinar uma criança a não fazer birra.

Vai muito além de conseguir uma casa sem gritos.

Vai muito além de fazer com que ela obedeça.

A pergunta que mais faço durante a minha maternidade é:

Que pessoa eu quero ajudar meu filho a se tornar?

E perceba que eu não disse "que filho eu quero ter".

Eu não quero simplesmente uma criança que obedeça quando eu digo não.

Quero ajudar a criar uma pessoa que entenda por que algumas coisas são importantes.

Quero um filho que saiba respeitar, mas que também saiba exigir respeito.

Que consiga reconhecer os próprios erros e pedir desculpas.

Que saiba lidar com uma frustração sem precisar ferir alguém.

Que consiga ouvir um não sem acreditar que o mundo lhe deve um sim.

Que saiba estabelecer seus próprios limites.

Que tenha coragem para dizer não quando alguém ultrapassar esses limites.

Que consiga olhar para alguém diferente dele e entender que ser diferente não significa ser inferior.

Que tenha empatia, mas que também saiba se proteger.

Que consiga sentir raiva sem transformar a raiva em violência.

Que saiba que chorar não o torna fraco.

Que entenda que pedir ajuda não é fracassar.

Que tenha princípios, mas também tenha consciência suficiente para questionar aquilo que precisa ser questionado.

Que saiba se posicionar sem precisar diminuir ninguém.

Que consiga conviver com o mundo sem precisar ser dominado por ele.

E, principalmente, que saiba quem ele é.

Talvez seja por isso que tudo o que conversamos até aqui seja muito maior do que parece.

Quando falamos sobre limites, não estamos apenas ensinando uma criança que ela não pode fazer determinada coisa.

Estamos ensinando que existem limites.

Que o outro tem limites.

E que ela também tem.

Quando falamos sobre birras, não estamos apenas tentando fazer o choro parar.

Estamos ensinando uma criança a atravessar uma frustração sem precisar destruir tudo ao seu redor.

Quando falamos sobre sentimentos, não estamos tentando criar crianças que nunca sintam raiva, tristeza ou medo.

Estamos ensinando que todos esses sentimentos podem existir e que, ainda assim, existem maneiras de lidar com eles.

Quando falamos sobre respeito, não estamos ensinando apenas a criança a respeitar os adultos.

Estamos ensinando que respeito precisa existir nas duas direções.

E quando falamos sobre nossos próprios erros, estamos ensinando que ninguém precisa ser perfeito para reconhecer quando fez algo errado e tentar fazer diferente.

Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais bonita da educação.

Nós não estamos apenas criando crianças.

Estamos ajudando a formar os adultos que um dia estarão caminhando pelo mesmo mundo que nós.

E isso me faz pensar muito sobre o tipo de mundo que estamos ajudando a construir.

Porque, quando ensino meu filho a respeitar alguém, talvez eu esteja ajudando, mesmo que de uma maneira pequena, a tornar o mundo de outra pessoa um pouco melhor no futuro.

Quando ensino meu filho a controlar a própria raiva, talvez eu esteja evitando que outra pessoa seja ferida por ela.

Quando ensino meu filho a reconhecer um erro, talvez eu esteja criando um adulto que saiba assumir responsabilidades.

Quando ensino meu filho que ele pode ser amado mesmo quando erra, talvez eu esteja formando alguém que não precise diminuir os outros para se sentir importante.

E quando ensino meu filho que ele merece ser respeitado, talvez eu também esteja ensinando a ele que ninguém tem o direito de ultrapassar seus limites.

É claro que não temos controle sobre quem nossos filhos serão.

Podemos ensinar, orientar, conversar, corrigir, acolher, dar exemplos e fazer o nosso melhor.

Mas, no fim, eles serão pessoas próprias.

Terão suas escolhas, suas personalidades, suas experiências e seus próprios caminhos.

E talvez seja justamente por isso que eu não queira criar um filho perfeito.

Quero criar um filho preparado.

Preparado para reconhecer seus erros.

Para lidar com suas frustrações.

Para respeitar as diferenças.

Para defender seus limites.

Para ouvir um não.

Para dizer não.

Para pedir ajuda.

Para oferecer ajuda.

Para amar.

Para se posicionar.

Para cair e levantar.

Para entender que o mundo nem sempre será gentil, mas que ele não precisa deixar de ser gentil por causa disso.

E eu sei que, enquanto ensino tudo isso a ele, também estou aprendendo.

Ainda erro.

Ainda perco a paciência.

Ainda tenho dias em que não consigo ser a mãe que gostaria.

Mas talvez a maternidade seja justamente isso: caminhar enquanto ensinamos nossos filhos a caminhar.

Eu não tenho a pretensão de entregar a ele uma infância perfeita.

Nem acredito que isso exista.

Quero entregar uma infância na qual ele se sinta amado, ouvido, respeitado e seguro.

Uma infância na qual ele possa errar sem acreditar que deixou de ser amado.

Uma infância na qual ele aprenda que seus sentimentos têm espaço, mas que seus sentimentos não dão a ele permissão para ferir outras pessoas.

Uma infância na qual ele aprenda que existem limites, mas que limites não significam falta de amor.

E talvez, daqui a muitos anos, quando ele olhar para trás, eu não esteja preocupada se ele vai se lembrar de cada regra que ensinei, de cada "não" que falei ou de cada brinquedo que pedi para ele guardar.

Talvez eu só queira que ele se lembre de como se sentia sendo meu filho.

E, se eu puder fazer alguma coisa para que outras mães também consigam construir isso com seus filhos, então este livro já terá valido a pena.

Porque, no fim, não estamos apenas criando nossos filhos para o mundo.

Estamos também ajudando a criar o mundo no qual eles e todos nós vamos viver.

E essa, para mim, é a maior responsabilidade e, ao mesmo tempo, o maior privilégio da maternidade.

Para fechar

Para fechar

Para fechar este livro, eu quero te pedir, de todo o coração: aproveite.

A maternidade é difícil. É pesada, muitas vezes. É cansativa em tantos dias. Existem momentos em que você vai querer cinco minutos de silêncio, uma noite inteira de sono e um pouco de tempo só para você. E está tudo bem.

Mas, no meio de tudo isso, aproveite.

Abrace sempre que sentir vontade. Sinta o cheirinho de bebê sempre que quiser. Encha seus filhos de beijinhos ao acordarem pela manhã. Pare alguns minutos em uma tarde de domingo e sente no chão para brincar de qualquer coisa que também seja divertida para você. Não estou dizendo para fazer aquilo de que não gosta, mas encontre pequenas coisas que vocês dois gostem e, quando estiver ali, esteja de corpo e alma.

Deixe que usem fantasias para ir ao mercado. Pinte a parede do quarto com as cores preferidas deles. Tome um banho de chuva juntos em um dia de calor. Busque mais cedo na escola só para tomar um sorvete.

Cante as músicas de ninar que você ouvia quando era criança. Cante e dance as músicas preferidas dos seus filhos com eles. Esqueça a bagunça da casa por algumas horas e construa uma cabaninha para entrar no mundo do faz de conta.

Ria de algumas situações que talvez você devesse levar mais a sério de vez em quando. Está tudo bem.

Repita aquelas palavras erradas que eles falam, mas que são tão bonitinhas que você gostaria que nunca aprendessem a falar corretamente.

Diga "eu te amo" mil vezes no mesmo dia.

Chore nas apresentações escolares.

Dê beijinhos nos machucados como se eles realmente fossem milagrosos.

Tire fotos. Guarde desenhos. Faça vídeos. Guarde frases. Registre aqueles pequenos momentos que, naquele dia, parecem comuns, mas que um dia você dará tudo para poder voltar e viver outra vez.

Porque é isso que ninguém consegue nos preparar para entender: vai passar.

Aquele bebê que hoje cabe inteiro no seu colo vai crescer. A criança que pede para você ficar mais cinco minutos vai, um dia, fechar a porta do quarto sozinha. As mãozinhas que hoje procuram as suas vão ficar maiores. As palavras engraçadas vão desaparecer. As noites difíceis também vão passar.

E, quando você perceber, vai sentir saudade de fases que, enquanto vivia, pareciam tão cansativas.

Por isso, viva a maternidade.

Viva de corpo e alma. Se jogue de cabeça. Permita-se estar presente. Não espere tudo estar perfeito para aproveitar, porque a vida com filhos nunca será perfeitamente organizada, perfeitamente silenciosa ou perfeitamente planejada.

Aproveite o imperfeito.

É nele que estão algumas das memórias mais bonitas.

E quando os anos passarem, talvez você não se lembre de quantas vezes a casa esteve bagunçada, de quantos brinquedos ficaram espalhados pelo chão ou de quantas vezes você não conseguiu dar conta de tudo.

Mas vai se lembrar daquele abraço apertado.

Da risada no meio da sala.

Do banho de chuva.

Do sorvete depois da escola.

Da cabaninha improvisada.

Daquela voz pequenininha dizendo "eu te amo".

E, principalmente, vai lembrar que você esteve ali.

Talvez seja essa a maior coisa que podemos oferecer aos nossos filhos: não uma mãe perfeita, mas uma mãe presente. Uma mãe que tentou, que errou, que pediu desculpas, que aprendeu, que colocou limites, que perdeu a paciência algumas vezes, que recomeçou tantas outras… e que, acima de tudo, amou.

Então, quando fechar este livro, não leve com você a sensação de que precisa fazer tudo certo.

Leve apenas a certeza de que você não precisa ser perfeita para ser uma boa mãe.

E, quando estiver cansada, quando duvidar de si mesma ou quando sentir que não está fazendo o suficiente, volte para o começo de tudo: você não precisa acertar todos os dias. Você só precisa continuar amando, aprendendo e tentando.

Porque a maternidade passa rápido demais.

Então, enquanto ela acontece…

viva. Ame. Aproveite. E faça memórias. Porque, no fim, são elas que ficam.

Agradecimentos

Agradecimentos

Desde pequena, eu amava ler e escrever. Ainda adolescente, cheguei a escrever alguns romances que, com o tempo, acabei perdendo e que nunca chegaram a ser publicados.

Anos depois, muitas pessoas ao meu redor me convenceram a tirar este livro do papel. Confesso que não foi fácil. Foram meses e meses escrevendo, reescrevendo, tendo novas ideias, complementando, mudando e, principalmente, me dedicando de corpo e alma a este projeto.

Foi uma experiência incrível.

Fiz questão de pensar em cada conversa que já tive com as pessoas que me acompanham nas redes sociais, nas dúvidas que mais recebo, nos assuntos que mais despertam interesse e nas questões que tantas vezes aparecem nas minhas mensagens. Este livro nasceu, em grande parte, dessas trocas.

Mas ele também nasceu de pessoas que sempre acreditaram em mim.

Agradeço imensamente à minha mãe, que nunca deixou de me incentivar a seguir os meus sonhos. Ela sempre me disse: "Está com medo? Vai com medo mesmo." E talvez eu nunca tenha entendido tanto essa frase quanto durante a criação deste livro.

Minha mãe foi mãe tão cedo e, ainda assim, me criou tão bem que, se eu for 10% da mãe que ela foi para mim, não tenho dúvidas de que meu filho terá uma infância maravilhosa.

Ao meu marido, meu muito obrigada por ter estado ao meu lado durante todo esse processo. Obrigada por me apoiar, por me ouvir, por ter paciência e por escutar cada trecho deste livro umas dez vezes. Obrigada por acreditar em mim mesma nos momentos em que eu mesma duvidei.

Mas o meu maior agradecimento é para o meu filho.

Meu pequeno Noah.

Meu maior sonho realizado. Meu maior presente de Deus.

Sem ele, não existiria essa Paloma. A Paloma que nasceu junto com a mãe que me tornei. A Paloma que, desde que ele chegou, tenta ser uma pessoa melhor todos os dias. Que passou a enxergar a infância com outros olhos e que encontrou um propósito ainda maior: contribuir para que o maior número possível de crianças tenha uma infância feliz, segura e cheia de amor.

Este livro também é um pouco da nossa história. É sobre tudo o que tenho aprendido desde que me tornei mãe. Sobre os acertos, os erros, as dúvidas, os medos e a busca diária para ser uma mãe melhor para ele.

Noah, talvez você só entenda estas palavras daqui a muitos anos. Mas, quando entender, quero que saiba que você mudou a minha vida de todas as formas possíveis.

Obrigada, meu filho.

Obrigada por existir.

E, acima de tudo, obrigada por ter me ensinado que, quando você nasceu, eu também nasci de novo.

Sobre a autora
Paloma Justa

Paloma Arruda Justa

Criadora de conteúdo sobre maternidade, rotina e educação

Paloma Arruda Justa, 28 anos, nasceu no Rio de Janeiro e se mudou para Cascavel, no Paraná, aos 8 anos de idade. Influenciadora digital e criadora de conteúdo sobre maternidade, rotina e educação, trabalha na internet há seis anos e construiu uma comunidade de mais de 1 milhão de pessoas que acompanham diariamente sua forma leve, acolhedora e, acima de tudo, humana de falar sobre a maternidade.

Paloma começou nas redes sociais incentivada pela própria mãe, que já trabalhava com internet. Mesmo antes de se tornar mãe, sempre soube que queria compartilhar essa fase da vida e que a maternidade faria parte do caminho que sonhava construir na internet.

Hoje, reúne mais de 1 milhão de pessoas em suas redes sociais, entre Instagram, Facebook e TikTok, onde compartilha o cotidiano da maternidade, fala sobre birras, educação, rotina e os desafios que fazem parte da criação dos filhos — sem deixar de lado o amor, o carinho e os momentos leves que também fazem parte dessa jornada.

Mãe do Noah, Paloma encontrou na maternidade um dos maiores propósitos de sua vida: tornar o dia a dia de outras mães mais leve, oferecendo informação, reflexão e acolhimento, sem a cobrança de uma maternidade perfeita.

Seu primeiro livro nasceu justamente dessa vontade. Depois de ler diversos livros sobre maternidade e sentir falta de uma abordagem mais humana e real sobre as dificuldades da criação dos filhos, Paloma percebeu, também através das inúmeras conversas com suas seguidoras, o quanto esses assuntos precisavam ser mais discutidos.

Ela acredita em uma maternidade com mais amor, carinho e acolhimento — mas também em uma maternidade possível, imperfeita e humana.

Este é seu primeiro livro.